O comandante-geral do Corpo de Bombeiros do Amazonas, Orleilso Ximenes Muniz, destaca que a corporação vem avançando substancialmente para atender com mais eficiência e qualidade às necessidades da população. Hoje, conta com modernos equipamentos para intervenção em áreas terrestres e aquáticas. E também em incêndios florestais, recorrentes em certas épocas do ano no Estado.
“Passamos por momentos de transformação”, ressalta o comandante. O Corpo de Bombeiros Militares do Estado tem 146 anos de existência. E atribui-se à credibilidade que conquistou até hoje a um trabalho árduo e de muita dedicação ao longo de quase 150 anos de atuação, segundo Ximenes.
O ingresso de 453 novos integrantes é aguardado com muitas expectativas após o concurso público. O número de inscritos alcançou 47 mil. São 400 vagas para soldados e 53 para oficiais bombeiros.
Hoje, a corporação só atua presencialmente em 11 municípios do Amazonas, mas pode mobilizar com rapidez todo o seu aparato logístico para respostas rápidas em ocorrências emergenciais tanto em Manaus quanto no interior do Estado.
“Trabalhamos a formação de brigadas de incêndios, principalmente no arco do fogo, que compreende os municípios de Lábrea, Humaitá e Apuí, no sul do Amazonas, cidades que são castigadas anualmente pela alta estiagem”, acrescenta o comandante,
O Corpo de Bombeiros também acompanha a inovação tecnológica, garante Ximenes. Fazem parte dessa logística especializada duas plataformas Magirus, marca conhecida mundialmente, para intervenção até em 30 metros de altura. Veículos de combate a incêndios florestais, robustas e capazes de desbravar as matas, e as viaturas de vir, preparadas para respostas rápidas em casos de salvamento, compõem ainda esse leque de novas ferramentas. E outras virão à medida que forem necessárias.
“Estamos de prontidão para qualquer emergência”, afirma Ximenes. Recentemente, a corporação alcançou também a sua principal bandeira de luta. Militares que fizerem especialização, mestrado e doutorado terão um acréscimo no salário de 25% a 35%. E os benefícios também se estendem aos integrantes da Polícia Militar. “É uma forma de estimular o militar, que está ali acomodado, a se qualificar cada vez mais em áreas com temáticas sobre essas atividades”, afirma ele.
Orleilson Ximenes participou da live ‘JC às 15h’, comandadas pelos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.
Jornal do Commercio – Tivemos dois anos atípicos com a pandemia. Como está hoje o Corpo de Bombeiros?
Orleilso Muniz – O Corpo de Bombeiros é uma instituição centenária. Tem 146 anos de existência. Estamos passando por momentos de transformação. Esperamos o ingresso de 453 novos bombeiros militares após o concurso público.
Isso nos dá capacidade para aumentar nosso poder operacional em Manaus e no interior do Estado. Hoje, estamos presentes fisicamente só em 11 municípios.
Mas temos capacidade de atender emergências em todo o Estado movimentando a nossa logística operacional. O Corpo de Bombeiros busca mitigar e cobrir essas limitações presenciais com tecnologia.
A Defesa Civil, que faz parte do Corpo de Bombeiros, está presente em todos os municípios. É um trabalho que temos feito constantemente para aumentar nossa capilaridade. Para aqueles municípios que não possuem presença pública de nossa corporação, chegamos lá com a Defesa Civil.
Damos orientações à população e trabalhamos a formação de brigadas, que podem atuar em respostas rápidas até a chegada dos bombeiros.
Isso acontece muito no sul do Amazonas por ocasião do período de estiagem. Toda a região é atingida. Lábrea, Humaitá, Apuí e Boca do Acre são os municípios atingidos.
JC – Todo ano tem bastante fogo….
OXM – Isso, é o arco do fogo, uma região que todo ano é bastante impactada por causa da estiagem. Este ano, já estamos finalizando o planejamento para movimentar efetivo no sul do Amazonas.
Trabalho feito em parceria com a Defesa Civil e as secretarias municipais e estadual do Meio Ambiente.
JC – Como estão, hoje, os equipamentos do Corpo de Bombeiros?
OXM – Temos, hoje, duas plataformas Magirus, para intervenção até com 30 metros de altura, que é uma marca consolidada mundialmente. Caso ocorra sinistro em prédio elevado, conseguimos atuar e prestar socorro qualificado.
Conseguimos também viaturas, que chamamos de bomba tanque, com alta capacidade de combate a incêndios. Temos esses equipamentos em todos os postos de bombeiros da nossa capital. Possuímos viaturas de combate a incêndios florestais, bem robustas, que podem entrar na mata mesmo.
Temos viaturas de vir que são preparadas para respostas rápidas em ações de salvamento. São equipadas para tirar vítimas em ferragens. E através de seminários, discutimos e elencamos o que podemos trazer para aprimorar os trabalhos.
Em breve, todo bombeiro do Amazonas terá o seu equipamento de forma individualizada, coisa que não tínhamos no passado. Isso é muito importante.
Na escola em que me formei 20 anos atrás, todo bombeiro tinha seu equipamento. Estamos trabalhando para adquirir equipamentos e insumos. Preparamos os bombeiros para trabalharem e usarem esses equipamentos de forma correta.
JC – Hoje, observamos casos de contestação na Justiça envolvendo irregularidades em concursos públicos. Os bombeiros também fazem uma nova seleção. Como a corporação está se preparando para evitar esse tipo de situação?
OXM – Até hoje, estamos enxergando o concurso como algo essencial para a sociedade. Precisamos ter uma corporação forte em condições de atender.
E o ingresso no Corpo de Bombeiros só se dá através de concursos. E de repente sermos surpreendidos com decisões que impeçam a realização do concurso é um prejuízo para a sociedade.
Então, buscamos atender todas as exigências legais tanto do Tribunal de Contas quanto do Judiciário para não sofrermos nenhum embargo. Desde o início do processo, estamos fazendo ajustes quando necessários no edital.
Já fizemos algumas retificações. Tivemos quase 47 mil inscritos. Pedimos à FGV que aplicasse as provas onde os candidatos se inscreveram.
JC – Como é a formação dos bombeiros?
OXM – Temos 400 vagas para soldados e 53 para oficiais. Ensino médio para soldado e curso superior para oficial.
O soldado faz um curso de formação de 10 meses. E o oficial de dois anos. Ele vai aprender muita coisa de engenheira, disciplinas específicas de combate a incêndios, salvamento, de altura, aquática.
JC – Já fica recebendo salário?
OXM – Sim, a partir do momento que o concurso é homologado, ele já passa a receber.
JC – O Corpo de Bombeiros integra o grupo de trabalho do governo do Amazonas para coibir aglomerações. Foram detectadas algumas irregularidades em casas noturnas envolvendo alvarás e autorizações. Como está sendo feita essa fiscalização, até para evitar que as pessoas se aglomerem?
OXM -Primeiro, hoje está cientificamente comprovado que o único instrumento para combater a Covid é a vacina. Tanto que grande parte das internações é de pessoas que não se vacinaram ou não completaram o esquema vacinal.
Hoje, a central integrada de fiscalização é a principal ferramenta para cobrar o cumprimento dessas regras durante a pandemia. Vários órgãos saem em comboio, à noite principalmente, e são detectados locais que desrespeitam os decretos.
E esses locais, além de promoverem aglomerações, também não possuem o sistema de segurança contra incêndios, um documento que é liberado pelo Corpo de Bombeiros para autorizar o funcionamento.
Além de estarem contribuindo para a disseminação da Covid, esses estabelecimentos estão pondo em risco a vida das pessoas.
O Corpo de Bombeiros observa. Quando é o caso de notificar, notifica. E quando é o caso de interditar, interdita. Em todos os finais de semana, temos vários estabelecimentos interditados por não respeitarem a lei.
JC – O Brasil teve uma verdadeira comoção com o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que levou a uma maior fiscalização das casas noturnas. Mas parece que depois de um tempo, as coisas esfriam. Isso é normal ou existe um trabalho ininterrupto para prevenir essas situações?
OXM – Nós não descansamos. Tudo que aconteceu na Boate Kiss serve de ensinamento. Todo estabelecimento, à exceção daqueles para habitação de uma única família, os demais são obrigados a estar regularizados junto ao Corpo de Bombeiros.
É bem verdade que existem estabelecimentos que são construídos de forma clandestina. E o poder público acaba não tendo como chegar a todos os locais.
Esses estabelecimentos são construídos sem a menor segurança, colocando em risco a vida das pessoas. As coisas estão bem até acontecer o problema. Tem gente que acha que o extintor de incêndio é a maior besteira do mundo.
Por exemplo, 95% dos grandes incêndios acontecem no princípio de incêndio, que é combatido com extintores. É importante que as pessoas entendam que os sistemas de segurança não são apenas uma exigência legal.
Eles de fato têm utilidade e precisam ser observados. E mais importante que isso, precisam ter uma pessoa habilitando para usar os sistemas. Por isso, são importantes as formações de brigadas.
JC – No final do ano passado, o governador realizou a promoção de bombeiros, Na prática, o que isso significa em termos de valorização na corporação?
OXM – O governador Wilson Lima foi o que mais promoveu bombeiros militares em todos os tempos. A promoção é a consagração de uma trajetória. Você começa como soldado e é promovido a cabo.
E à medida que vai avançando nas habilidades e no conhecimento, vai ser promovido. É muito bom para aumentar a autoestima do bombeiro como também a moral coletiva da tropa.
O maior ganho efetivo que tivemos recentemente foi a aprovação de uma lei, que era um pleito antigo da corporação. Estávamos há anos batalhando. O governo chamou os técnicos da Sefaz e da Casa Civil para atender a esse pleito.
Hoje, o policial e o bombeiro militar que possuem especialização, mestrado e doutorado têm um incremento financeiro de 25% a 35% nos salários. É um ganho financeiro substancial.
JC – Incentiva a qualificação…
OXM – exatamente, o militar que estava ali acomodado, ele vai buscar uma especialização. Não é qualquer mestrado, mas um que tenha uma pertinência temática às suas atividades. Isso está na lei que criou o benefício.
JC – Em 17 de janeiro, vimos ocorrências com duas mortes em deslizamentos de terra. De que forma estão sendo mapeadas essas áreas de risco?
OXM – Estive pessoalmente nesses dois locais – morreram uma criança e uma senhora. À medida que as pessoas vão ocupando de forma desordenada algumas áreas da cidade, elas vão agredindo o solo.
Isso potencializa quando chove muito, tendo deslizamentos de terra, inundações e outras situações. Nas encostas, se você fizer um corte errado no solo, nem precisa chover para haver deslizamento.
A Defesa Civil esteve conosco em todo o momento. Essas pessoas são encaminhadas para receber o aluguel social e outros auxílios. Há um serviço de resposta por parte do governo e dos bombeiros.
JC -A ocorrência foi devido à manipulação equivocada de uma área. Como fica esse trabalho preventivo?
OXM – O Corpo de Bombeiros tenta sensibilizar a população, mas é um trabalho difícil, inclusive da prefeitura, de impedir que as pessoas ocupem esses locais.
Não foi o primeiro caso. Tivemos também muitos problemas no passado. Você aloca as pessoas e no outro dia chegam outras para ocupar as áreas. É um trabalho que chega a ser ingrato.
Os motivos da ocupação são diversos. E o ideal é que as pessoas não ocupem as áreas de risco.
JC – Uma equipe do Corpo de Bombeiros é sempre requisitada quando há um naufrágio. Para isso, precisa ter um pessoal treinado o tempo todo. Como está hoje essa logística?
OXM – Nossa tropa de mergulhadores é a que atua nos ambientes mais inóspitos do Brasil, e me arvoro até dizer do mundo
Atuam no Solimões, com águas barrentas, carregadas, e no Rio Negro, que são águas mais tranquilas, mas extremamente perigosas. A própria fauna dos rios é um complicador.
Temos uma equipe altamente qualificada. Muitos têm interesse nessas atividades. É de muito risco
Com o ingresso desse novo efetivo, vamos aumentar a nossa quantidade de mergulhadores. Temos mergulhadores em Manaus, Itacoatiara, Parintins, para atender a essas ocorrências. A nossa atividade de mergulhadores é quase que rotineira.
Diariamente, há afogamentos na Feira da Panair, na Ponta Negra. As pessoas do nosso salvamento aquático são altamente treinadas para impedir afogamento.
Os mergulhadores são acionados quando já aconteceu o problema, enquanto o guarda vidas faz o salvamento.
JC – Recentemente, vimos com tristeza jovens que se afogaram ao tentar pegar uma bola num igarapé na Compensa. Como avalia esses acidentes?
OXM – Esse acidente serve de alerta para muitas situações, na piscina, no balneário. Os adolescentes estavam praticando um esporte. A bola caiu nas águas do igarapé. Acreditavam que sabiam nada e tentaram tirar. E se afogaram.
A nossa equipe foi para resgatar os corpos. Você tem que entender que não pode negligenciar as condições de estar na água. Se não souber nadar, tem que estar com equipamentos de proteção.
Em algum momento, eles tentaram se agarrar na bola para flutuar. Mas entraram em pânico e se afogaram. Quando se começa a gastar muita energia, o próprio cérebro desliga o corpo e a pessoa desmaia. É um mecanismo de defesa.
A pessoa pode ficar até quatro minutos sem respirar. É o momento em que o cérebro pede para o sistema motor voltar. E quando a pessoa tenta respirar novamente, inala água.
O guarda vida sabe disso. A população não sabe. Por isso, precisamos estar atentos. Até um balde em casa é um risco. A criancinha está tateando na água, acha linda. E cai no balde. A mãe está no quarto, passa 10 minutos lá. É o tempo que a criança vem a óbito.






