De acordo com o artista plástico Moacir Andrade (1927/1916), cujo pai era mestre de obras, ainda na década de 1950 os primeiros casarões da época do ciclo da borracha (1890/1910) começaram a ser demolidos para dar lugar a construções com linhas e designs ‘modernos’, mais simples, porém, com pouca ou nenhuma beleza. Os casarões eram considerados ‘coisas do passado’. No final da década de 1960, com a chegada da Zona Franca como símbolo de modernidade, e pelas décadas de 1970 e 80, mais casarões e até palacetes, foram colocados abaixo, ou totalmente modificados, pelos seus proprietários. Somente nos últimos anos as belas residências construídas entre o final do século 19 e início do século 20 passaram a ser vistas como verdadeiras obras arquitetônicas e, desde então, várias delas têm sido retiradas do abandono, restauradas e voltado a embelezar as ruas históricas do Centro de Manaus.

É o caso do casarão geminado da rua Lima Bacury, 255, esquina com a rua Doutor Almino, que não estava abandonado, mas desabitado, pertencente aos irmãos Ronald, Roger e Rômulo, filhos dos advogados Marlídice e Jefferson Péres. O casarão foi restaurado e, desde 19 de março, abriga o ateliê Casa Paes Barreto, da estilista Bruna Paes Barreto.
Geminadas (de gêmeas) são residências construídas uma ao lado da outra, de modo que ambas compartilham a mesma estrutura e pelo menos uma parede lateral. Possuem plantas muito parecidas e suas fachadas geralmente são espelhadas. Suas construções surgem, em Manaus, exatamente no período áureo do comércio da borracha.
“Acredito que os pais construíam uma casa para si e a outra para os filhos”, explicou Roger.

Três donos
Amantes da história de Manaus, os irmãos Péres foram pesquisar o passado dos casarões da rua Lima Bacury: o de número 247, pertenceu aos seus avós desde 1966 e hoje é habitado por suas tias; e o de número 255, em 2005 foi adquirido por Marlídice.
Até onde Ronald conseguiu pesquisar, ambos os casarões foram construídos por volta de 1907/1908, com certeza por alguém bastante endinheirado, mas que ele não conseguiu descobrir quem teria sido.

“Os registros mais antigos de ambos remontam a meados da década de 1920, quando Manaus já se encontrava mergulhada em plena ‘débâcle’ da borracha, e os casarões faziam parte do espólio da massa falida da outrora poderosa firma exportadora e aviadora de Tancredo Porto & Cia., certamente dados a algum banco como garantia (e posteriormente perdidos) por dívidas contraídas por seu construtor e proprietário original”, revelou Ronald.
Vários empresários faliram, a partir de 1913, com o declínio do comércio da borracha, perdendo todos os seus bens. O caso mais notório é o do alemão Karl Waldemar Scholz, que construiu o Palacete Scholz, entre 1903/1910 (sem dúvida um dos mais belos daquele período), para ostentar sua riqueza, e faliu com a crise da borracha, hipotecando o palacete para o coronel Luiz da Silva Gomes. Como não conseguiu pagar a hipoteca, Scholz perdeu o palacete, vendido ao Estado, em 1917, e ressurgindo, em 1918, com o nome de Palácio Rio Negro, sede do governo do Estado.
Ronald desconhece a história do casarão 245, até 1966, mas do casarão 255, ele descobriu muita coisa.
“Foram basicamente três indivíduos/famílias que detiveram sua propriedade até 2005. O primeiro deles foi o britânico George Clawson Browne, executivo da empresa ‘Manáos Harbour Ltd.’, construtora e concessionária do porto flutuante de Manaus, que o adquiriu em 1924. Em junho de 1946, Browne vendeu o casarão para o industrial Péricles Augusto de Queiroz (de quem não consegui apurar maiores dados); e este, em 1959, o revendeu para o imigrante japonês Toshizo Nakajima, que havia começado sua vida como jardineiro na chácara de George Browne, na Vila Municipal e, anos depois, tendo amealhado fortuna como proprietário de vastas plantações de pimenta-do-reino no baixo Amazonas, adquiriu o casarão do ex-patrão”, contou.
Coube aos filhos
Com a saída da família Nakajima do imóvel, no início da década de 1970, este passou a sediar, a partir de 1973, o Consulado do Japão. Posteriormente, foi subutilizado, servindo, inclusive, como posto de alistamento militar do Exército.
“Quando decidiu adquirir o casarão da Lima Bacury, mamãe agiu movida duplamente, pelo coração e pela razão”, disse Ronald.
“Dotada de noções intuitivas de arquitetura e de engenharia, mesmo sem jamais ter cursado quaisquer destas faculdades, mamãe anteviu naquele casarão fechado, envelhecido e depauperado por mais de três décadas, grandes possibilidades, de convertê-lo num local renovado, reconfigurado com um pé no passado e outro no futuro, pudesse vir a se prestar a mil e uma coisas: um café, um restaurante, uma clínica de estética, um escritório de advocacia, uma loja de decoração, um antiquário, um atelier de moda, que acabou se concretizando”, comemorou.
Foram quase 15 anos de obras, restaurando o que já existia e construindo uma área complementar, na parte de trás do casarão. Marlídice se foi em 2022 e não chegou a ver o casarão ocupado da forma que queria.
“Coube a nós, seus três filhos, dar sequência ao que ela havia se predisposto a realizar desde o início: tornar o casarão da rua Lima Bacury um marco referencial para toda a cidade”, finalizou.
Visitas ao casarão, agora Casa Paes Barreto, podem ser agendadas pelo Instagram: @casapaesbarretoatelier







