Identidade digital será controlada

Em: 25 de fevereiro de 2014
Empresas querem centralizar controle de identificação de quem usa internet
Empresas querem centralizar controle de identificação de quem usa internet

As operadoras de telefonia lançaram uma nova estratégia: centralizar o controle de identificação digital de quem usa a internet. Apesar de não ter havido menção explícita à agência americana NSA, o plano é colocado em marcha após o escândalo de espionagem que brotou no vácuo da falta de regulação sobre os dados de usuários.
A ideia é padronizar uma tecnologia que identifique cada usuário a partir do chip de seu celular, cada vez mais o meio dominante de acesso à internet. Essa identidade daria acesso a serviços na internet (como bancos e aplicativos de música) e comandaria também outros aparelhos, mesmo que não conectados diretamente à internet.
“A autenticação é o pesadelo dos usuários”, afirmou Stéphane Richard, presidente da operadora francesa Orange. “A transmissão dos dados é feita sem encriptação, o que a torna fácil de interceptar, e muitas vezes o controle usado é o próprio e-mail.”
Na proposta apresentada hoje, o controle passa a ser feito a partir de dois dados: o cartão telefônico de cada aparelho (SIM card) e uma senha de acesso via desktop não foi contemplado, ao menos no plano mostrado durante o Mobile World Congress, em Barcelona.
Para as teles, é uma tentativa de manter relevância no xadrez digital. Sua força original de receita, a transmissão de voz, declina rapidamente. Deve deixar de ser a fonte predominante em todo o planeta nos próximos anos, e em muitos lugares já ficou para trás. Por exemplo: uma das maiores operadoras da América Latina, a mexicana América Móvil, controladora da Claro no Brasil, viu sua fatia de receita com voz passar de 80% para 39% desde o ano 2000.
O cenário para as teles tampouco é róseo na transmissão de dados. O mercado foi largamente tomado pelos chamados OTT, jargão que o setor utiliza para descrever gente bem conhecida dos usuários, como Skype e WhatsApp. São empresas que utilizam a rede de dados das operadoras para criar seus próprios serviços e receitas (daí o nome “over the top”, que dá origem à sigla).
No mais básico dos serviços digitais, a troca de mensagens, as operadoras já comem poeira.
No ano passado foram trocadas mais mensagens por aplicativos do que pelo tradicional SMS, segundo a consultoria Mason. Daí a necessidade de marcar novos territórios para fazer frente ao crescente investimento que precisam fazer nas redes de transmissão a estimativa mundial do setor para o restante da década é de US$ 1,7 trilhão, o equivalente a três quartos do PIB brasileiro no ano passado.
Para isso, tentam aproveitar o momento de discussão sobre segurança e privacidade na rede.
“Nossa indústria é a tecnologia que atinge mais gente no mundo, são 3,4 bilhões de pessoas”, diz Anne Beuverot, diretora da GSMA, a associação das teles, numa oposição velada ao decantado número de 1 bilhão de usuários do Facebook. “As pessoas vão confiar nas operadoras”, afirma o presidente da entidade, o norueguês Jon Fredrik Baksaas”.
Falta, porém, combinar com “russos” como Jan Koum, o jovem de origem soviética que criou o WhatsApp a partir de uma técnica diferente de identificação do usuário, e americanos como Mark Zuckerberg e Larry Page, que transformaram suas plataformas (Facebook e Google, respectivamente) em uma porteira que dá acesso a muitos outros serviços, como provedores de conteúdo e editores de texto.
As operadoras citaram a Amazon como possível parceiro, mas também ela já avançou bastante no seu próprio sistema de identificação.
É no controle da informação carregada pela identidade digital que está a mina de dinheiro dessas empresas. No modelo proposto pelas teles, passariam a ser elas as controladoras de quem sabe o quê: uma rede social não precisaria ter o endereço doméstico do usuário, assim como um banco não teria por que saber seu tipo sanguíneo.
O ponto mais questionável dos sistemas de identificação que hoje dominam o mercado a falta de regulação foi demarcado por Oliveir Piou, presidente da Gemalto, empresa holandesa de segurança digital e apoiadora do projeto. “No caso das operadoras, há supervisão das autoridades”, afirmou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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