Os dados divulgados nesta semana pelo BCB (Banco Central do Brasil) mostram que a indústria foi o setor de atividade mais afetado em 2009 pelo efeito-contágio da crise financeira internacional sobre o mercado de crédito doméstico. O estoque de crédito ao setor industrial, concedido a partir de recursos livres e direcionados, atingiu R$ 304,56 mil em dezembro último, o que representou uma contração real de 1,5% no ano (em termos nominais, a variação foi positiva em 2,74%). Em contrapartida, nos demais setores (outros serviços, comércio e setor rural) o crédito aumentou em termos reais, mesmo que numa intensidade bem inferior à registrada em 2008 (respectivamente, 7,4%, 5,0% e 1,3%), atenuando a desaceleração do crédito total, que atingiu R$ 1,41 bilhão, como reflexo de uma expansão real de 10,2% (contra 22,8% em 2008 e 22,3% em 2007).
Demanda mundial
O condicionante mais geral da evolução adversa do crédito à indústria foi o impacto também mais intenso da crise mundial sobre este setor, que ao contrário das atividades terciárias (que são, na sua maior parte, não-comercializáveis), foi prejudicado pela contração da demanda mundial, maior exatamente no segmento de bens manufaturados. Com a gradual recuperação da atividade industrial ao longo do ano, o crédito ao setor reagiu no último trimestre, quando aumentou nominalmente 1,9% (após variações negativas nos dois trimestres anteriores), percentual, contudo, bem inferior ao registrado nos setores de comércio e outros serviços (ambos no patamar de 7%) e insuficiente para evitar a queda real no acumulado do ano – que, por sua vez, poderia ter sido muito mais expressiva caso os bancos públicos não tivessem atuado de forma anticíclica, como detalhado a seguir.
A análise da composição setorial do crédito pela ótica da propriedade de capital revela que os bancos privados estrangeiros foram os principais responsáveis pelo desempenho negativo do crédito à indústria, seguidos pelos bancos privados nacionais, com contrações reais de 19% e 9%, respectivamente, das operações com o setor. O pior resultado do primeiro grupo decorre, ao que tudo indica, da maior participação das operações com funding externo (como ACCs e repasses externos), que apresentaram uma queda ainda mais expressiva em função, num primeiro momento, da escassez de liquidez no mercado internacional e, num segundo momento, do efeito contábil da apreciação cambial (que reduz o valor em reais do estoque dessas operações, contratadas em dólares).
Em contraste, no grupo dos bancos públicos, houve expansão de 13,5% do crédito industrial, ancorada, sobretudo, nos desembolsos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolviimento Econômico e Social), que viabilizaram a continuidade de projetos de investimentos deslanchados antes da crise (quando a economia brasileira encontrava-se numa fase de aceleração de seu crescimento), bem como supriu, ao menos em parte, as necessidades de capital de giro das empresas industriais (e dos demais setores) mediante a um novo programa instituído no final de 2008, PEC (Programa Especial de Crédito).
Ademais, BB(Banco do Brasil) e CEF (Caixa Econômica Federal) atuaram de forma complementar ao BNDES no contexto de escassez de crédito privado, fornecendo empréstimos de curto prazo para ao setor, a partir de recursos direcionados e também livres. Assim, ao contrário deste banco de fomento (que não capta depósitos do público, operando somente com o primeiro tipo de recurso), as operações desses dois bancos federais contribuíram, igualmente, para atenuarem a desaceleração do segmento de crédito com recursos livres para pessoas jurídicas (e também para pessoas físicas, com destaque para as operações de crédito habitacional da CEF). Com isso, as operações de crédito neste segmento expandiram 4,9% em termos reais, ritmo bem inferior ao apresentado pelo segmento de crédito direcionado (23,1%), mas que poderia ter sido ainda menor não fosse esta atuação.
No segmento de recursos livres, considerando somente as operações com recursos domésticos, o crédito para pessoas físicas teve uma evolução mais favorável do que o crédito corporativo: altas de 14,5% e 6,1% em termos reais, respectivamente. Este desempenho diferenciado decorre tanto do impacto adverso da crise sobre a atividade empresarial (e, assim, do maior risco atribuído a esta última modalidade, especialmente no caso da indústria, como já mencionado), como do fato do crédito ao consumidor ser de mais fácil avaliação do que o crédito às empresas, que exige maior conhecimento dos negócios, análise financeira e monitoramento do desempenho.
Esses mesmos fatores explicam, em grande medida, o comportamento diferenciado das condições de prazo, custo e inadimplência nos dois segmentos. No âmbito das operações com pessoas físicas, a taxa de juros caiu 15,2%, o prazo aumentou 32 dias corridos e a inadimplência recuou 0,2%. Já nas operações com pessoas jurídicas, somente a taxa de juros traçou uma trajetória positiva (queda de 5,2%, bem menor do que a registrada no caso das pessoas físicas); já o prazo recuou (19 dias corridos) e a inadimplência subiu 2%, para 3,8% (patamar, todavia, ainda não preocupante).
Recuperação do crescimento
Em 2010, as operações de crédito às pessoas jurídicas devem ganhar dinamismo com a recuperação do crescimento econômico. No caso da indústria, o desempenho pode se revelar, inclusive, mais positivo do que nos demais setores, já que a trajetória do crédito deve replicar àquela da atividade industrial, que demorou mais que as atividades de comércio e serviços a se recuperarem do efeito-contágio da crise. Ou seja, no corrente ano, o setor deve recuperar o espaço perdido em 2009 nas operações de crédito bancário.







