Em 2014, estudos do Banco Mundial estimaram que o volume de alimentos desperdiçado ou perdido anualmente flutuava de um terço a um quarto do que era produzido. No Amazonas, por conta do clima, longas distâncias e falta de recursos, a perda de alimentos é um dos maiores problemas. Soma-se a isso a falta de uma cultura que valorize cascas, entrecascas e talos, partes dos vegetais que na maioria das vezes carregam mais nutrientes que as partes ‘nobres’. Para mitigar os prejuízos, algumas entidades como o Sesc (Serviço Social do Comércio) e o Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas), promovem ações de combate ao desperdício.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), a comida desperdiçada no varejo (17% do total perdido), poderia satisfazer as necessidades alimentícias de mais de 30 milhões de pessoas que vivem na região, o equivalente a 65% dos indivíduos que sofrem fome. Há diversas práticas para diminuir esse desperdício. A mais indicada delas, de acordo com a ONG Banco de Alimentos, é o chamado AIA (Aproveitamento Integral dos Alimentos).
Reaproveitamento e culinária regional
No escopo dos trabalhos de assistência técnica e capacitação realizados pelo Idesam, as oficinas de reaproveitamento de alimentos sempre estão presentes. O objetivo dessas oficinas é oferecer maior segurança alimentar para as comunidades e até mesmo uma alternativa de redução de custos e geração de renda, explica a engenheira agrônoma e técnica extensionista do Idesam, Marina Reia.
“Uma das idealizadoras da oficina, Terezinha Freire, instrutora da Pastoral da Criança, bióloga, especialista em Nutrição Humana e Saúde, em suas viagens pela Pastoral, percebeu o enorme desperdício de alimentos e em comunidades já carentes. Cascas, entrecascas e talos iam para o lixo. Assim foi gerado o conceito de aproveitamento integral e reaproveitamento de alimentos. O que notamos de início foi a redução em até 50% do quadro de desnutrição de algumas comunidades”, afirma.
A culinária regional foi enriquecida com a inclusão destes ‘novos’ produtos. “O público predominante é a dona de casa, a merendeira da escola, gente que vai trabalhar diretamente com os alimentos. E não queremos fugir do básico, o cardápio pode continuar sendo o arroz com feijão de sempre, mas dessa vez enriquecido”, disse Marina.
De acordo com Marina, as oficinas do Idesam cobriram uma lacuna e já criam a cultura do reaproveitamento no interior, usando de alimentos regionais. “Víamos cursos e oficinas oportunistas que propunham ensinar ao interiorano a ter uma alimentação saudável, mas os pratos não condiziam com a realidade. O interiorano não tem o hábito de comer lasanha e outros pratos caros. Fazia e comia só durante a oficina e nunca mais. O reaproveitamento e o aproveitamento integral propicia a criação de uma dieta rica e dentro das tradições”, conta.
Gerando renda e receitas
As parcerias também são importantes na criação dessa nova cultura e de novos cardápios, explica a engenheira. “O apoio do pessoal de nutrição do Inpa-MCTI (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e das escolas é essencial para essa cultura. Terezinha Freire, na área de nutrição humana vem incluindo no cardápio as sementes desidratadas e moídas para o enriquecimento de sopas e fabricação de paçocas. Uma novidade entre nossas pesquisas é o aproveitamento da entrecasca da macaxeira, que pode substituir o palmito em sabor e valor nutritivo”, resume Marina.
Como gerador de renda o reaproveitamento e aproveitamento integral ainda estão em fase de estudos. “É um das metas para 2017. Donas de casa e cozinheiras sugeriram a fabricação de doces e geleias de cascas de furtas. Sabendo do grande potencial de mercado desses produtos, corremos para estudar a possibilidade de transformá-los em negócios. Ainda há a utilização dos restos na compostagem. Nada se perde”, adianta a pesquisadora.
Outros exemplos positivos
Em 2014, o Inpa- MCTI já havia realizado um curso para transformar resíduos de peixes e de frutas em pratos saudáveis e de baixo custo. Casca de banana, sementes de melancia e de jerimum, filé e espinha de peixe defumado, dentre outros resíduos de alimentos, transformaram-se em deliciosas iguarias, como bife empanado, paçoca e almôndega, no Curso de Aproveitamento Integral de Alimentos.
Promovido pelo Instituto, em parceria com o Cetam (Centro de Educação Tecnológico do Amazonas) e a Universidade Nilton Lins, o curso ocorreu durante duas semanas, no Laboratório de Dietética da Universidade Nilton Lins. O curso fez parte das atividades do projeto “Escola Verde – Educação com os pés na terra”, que é desenvolvido nas escolas da rede pública do município Rio Preto da Eva (a 78km de Manaus), desde 2004, dentro do PCE (Programa Ciência na Escola) da Fapeam (Fundação de Amparo e Apoio à Pesquisa do Estado do Amazonas).
Um dos exemplos mais antigos é o Mesa Brasil do Sesc, criado no início da década passada. A missão do programa é contribuir para Segurança Alimentar e Nutricional dos indivíduos em situação de maior vulnerabilidade e atuar na redução do desperdício, mediante a doação de alimentos, desenvolvimento de ações educativas e promoção de solidariedade social em todo o país.
Esse ano o programa realiza em Manaus o seminário “O clima está mudando, a alimentação e a agricultura também”. O evento é alusivo ao Dia Mundial da Alimentação. As inscrições são gratuitas e estão sendo realizadas no site do Sesc AM, www.sesc-am.com.br/dia-mundial-alimentacao. Para ter acesso ao seminário, será necessário doação de 1 kg de alimento não perecível, que será entregue no dia do evento.
O QUE? Seminário “O clima está mudando, a alimentação e a agricultura também”
ONDE? Balneário do Sesc, na av. Constantinopla, 288 – Alvorada
QUANDO? 18 de outubro







