Nesta quarta (8), o Copom voltou a confirmar as expectativas do mercado e arbitrou uma redução de 0,25 ponto na Selic, mais amenas do que nas reuniões anteriores. Com isso, a taxa ficou em 10,50% ao ano, o menor nível desde dezembro de 2021 (9,25%). A decisão, no entanto, dividiu o Comitê de Política Monetária, já que quatro dos nove membros do colegiado votaram por um novo corte de 0,50%. Economistas e lideranças classistas ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio também se mostraram divergentes na avaliação da medida.
Em seu comunicado, o Copom justificou a decisão ao assinalar que o ambiente externo “mostra-se mais adverso” e cita uma “incerteza elevada e persistente referente ao início da flexibilização de política monetária nos EUA” e pressões do mercado de trabalho. “O Comitê avalia que o cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes”, enfatizou. O texto reforça também que “uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros”.
Em sua análise, o comunicado aponta que, no Brasil, “o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho tem apresentado maior dinamismo do que o esperado”. Mas vê fatores de risco em relação à inflação. “Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma maior persistência das pressões inflacionárias globais; e (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais apertado”, listou, deixando pouca margem para cortes no curto prazo.
Essa foi a sétima redução seguida na taxa dos juros básicos. Mas, também foi a menor desde o início de flexibilização da taxa, ocorrida em julho do ano passado, quando a Selic estava em 13,25% ao ano. Na ata do encontro anterior, o colegiado havia sinalizado uma redução de 0,5 ponto para a reunião de ontem. Mas, a piora no cenário fez com que a parte majoritária do colegiado optasse por uma redução de taxa abaixo de sua projeção anterior.
De março de 2021 a agosto de 2022, o Copom elevou a Selic por 12 vezes consecutivas, em um ciclo de aperto monetário que começou em meio à alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis. Por um ano, de agosto de 2022 a julho do ano passado, a taxa foi mantida em 13,75% anuais, por sete vezes seguidas. Antes do início do ciclo de alta e em decorrência dos impactos da pandemia, a Selic tinha sido reduzida para 2% ao ano, no nível mais baixo da série histórica iniciada em 1986.
“Política agressiva”
O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, lembrou que já havia uma expectativa no setor e no mercado em torno de uma redução no ritmo dos cortes da taxa básica de juros, com base no cenário de pressão inflacionária observado nos EUA e as consequentes alta de juros naquele país. Mas, considerou que a decisão foi inadequada.
“Entendo que o Conselho poderia adotar uma política mais agressiva, o que seria uma tendência compatível com o atual panorama econômico brasileiro. Temos um cenário de inflação sob controle. O IPCA dos últimos 12 meses, por exemplo, caiu para 3,93% em março. Ainda temos uma taxa de juros real de 6,9%, ou seja, 2,4% acima da taxa de juros neutra. Esse cenário penaliza a atividade econômica, mantendo em alta o custo financeiro suportado pelas empresas, e que é descarregado sobre os consumidores”, argumentou.
No entendimento do presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, a decisão do Copom não foi muito favorável para o setor. “É bom que há haja redução, mas previa-se que, em junho de 2024, a Selic já estaria em 9%. O efeito dessa baixa diminuição traz também efeitos no preço da prestação do imóvel. É possível que isso implique em menos obras de habitação e também infraestrutura. Agora, temos um cenário adverso e essa tragédia do Rio Grande do Sul deve afetar o fornecimento de alguns insumos e o caixa do governo, puxando alguma inflação”, explanou.
O presidente da Faea, Muni Lourenço, comemorou o novo corte. “Consideramos acertada a decisão do Copom de nova redução na taxa Selic e isso é importante para a retomada do crescimento econômico e favorecimento de crédito mais barato para investimentos do setor produtivo. Esperamos que essa trajetória permaneça, com as precauções de que isso não venha a gerar impactos inflacionários”,ponderou.
Procuradas pela reportagAté o fechamento desta edição, nenhuma das lideranças do comércio do Amazonas havia se pronunciado sobre a decisão do Copom.
“Cautela e compromisso”
A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, destaca a “cautela e o compromisso com o controle inflacionário” por parte do Copom, e avalia que a redução de 0,25 p.p. na Selic atende às expectativas do mercado e dos demais agentes econômicos. Conforme a economista, levando em consideração a atual conjuntura, os efeitos do novo corte da taxa de referência devem ser sentidos pelo mercado nos próximos 60 dias, impactando na atividade econômica.
“Frente às adversidades provocadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul e a real possibilidade de desabastecimento de arroz, leite, soja e carne bovina, bem como a elevação dos preços de produtos da cesta básica, acredito que a autoridade monetária ficará atenta ao IPCA como referência para a inflação, para decidir pela continuidade da trajetória de queda da Selic ou sua manutenção. Além do cenário doméstico, a situação econômica americana também deve ser objeto de acompanhamento pela autoridade monetária”, apontou.
O atual vice-presidente do Corecon-AM, e economista com especialização em Gestão Empresarial, José Altamir Cordeiro, lembra que o último relatório do Copom já indicava que deveria haver alguma amenização nos cortes da Selic, diante do cenário externo – especialmente a preocupação com os juros americanos – e a resistência da inflação de serviços.
“Estou de acordo com a decisão, pois é uma ação que demonstra maturidade com o cenário, e não com a pressão interna para redução das taxas de qualquer jeito. Enquanto o cenário externo continuar desfavorável para o equilíbrio das atividades econômicas, o governo precisa focar na responsabilidade fiscal, evitando endividamento desnecessário e inflação – que prejudica principalmente a população mais vulnerável.
Já a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, discordou da decisão. “O BC foi mais prudente, embora não tenha sido unânime. Há o cenário internacional e expectativa de possível alta de preços de alimentos, em função das chuvas no Rio Grande do Sul. Há que se avaliar até que ponto isso foi prejudicial para a agropecuária, mas entendo que haveria espaço para cortar a Selic ate 10,25% ao ano. Precisamos estimular a atividade econômica no país e reduzir o endividamento das famílias, e juros altos não ajudam”, concluiu.






