Gula
Quando o monge grego Evágrio Pôntico (346 – 399/400) listou pela primeira vez os pecados capitais eles eram oito no total. O que chama a atenção é que nessa lista o pecado mais grave era justamente a Gula. A partir daí, a lista de Evágrio passou por duas reformas, uma no século VI, onde o Papa Gregório (540 – 604) incluiu a inveja e fundiu orgulho com vaidade e outra 11 séculos depois, dessa vez a melancolia foi substituída por preguiça. Desse modo, desde lá, temos uma lista de sete vícios, avareza, soberba, luxúria, ira, gula, preguiça e inveja que definem as inclinações negativas capitais do ser humano.
Neste último artigo da série “Sete pecados e as virtudes capitais dentro da manufatura”, vamos falar da Gula. Na visão eclesiástica é o vício que corresponde ao descontrolado desejo de comer e beber. Em outras palavras esse comportamento é praticado por aqueles que vivem para comer quando deveria ser o contrário, ou seja, comer para viver. A despeito disso, cabe um comentário do milenar livro chinês Tao Te King (O livro do caminho e da sua virtude): “Trinta raios unem-se no cubo formando uma roda. Mas é seu vazio central que permite a utilização do carro. Modelai o barro para fazer um jarro. Recortai no espaço vazio das paredes portas e janelas a fim de que um quarto possa ser usado. Dessa forma o ser produz o útil, mas é o vazio que o torna eficaz”.
A gula no mundo do trabalho
Assumir mais responsabilidades do que é capaz, avocar ao invés de delegar por temer a perda de prestígio, desejar ter conhecimento de tudo são alguns dos indícios da gula no mundo do trabalho. Isso pode tornar o profissional medíocre a medida que ele deixa tudo pela metade, nunca conclui nada e sempre estoura os prazos. Como conseqüência, haverá má distribuição de carga de trabalho, o que é um desperdício, bem como alienação, falta de interesse das demais pessoas em se empenhar mais no trabalho.
Talvez uma idéia que melhor represente a gula dentro da empresa esteja atrelada aquilo que os americanos chamam de workaholics ou viciados em trabalho. Essa idéia de funcionamento 24 propiciada, sobretudo, pelos meios de comunicação portáteis causa nos profissionais desequilíbrios que gerarão, no curto prazo, problemas relacionados à vida pessoal seguido de distanciamento social, estreitamento intelectual entre outros. No médio prazo haverá manifestações de problemas de saúde tais como insônia, má alimentação, stress, depressão entre outros. Nesse sentido, lembro-me da palestra de Içami Tiba que disse: “Se você está trabalhando muito e ganhando pouco, faça alguma coisa; se você não tem tempo para a família, faça alguma coisa; se você está com tempo ocioso, faça alguma coisa”.
O Antídoto
Sabemos que o sucesso de qualquer empreendimento não depende apenas de fatores técnicos, mas também humanos. Os vícios tratados nessa série aparecem não só nos modelos de gestão, mas também nos relacionamentos entre setores, colegas de equipe, clientes e fornecedores por exemplo. A contrário sensu há as virtudes cardeais e teologais que ajudam a ter uma atitude equilibrada e sábia para lhe dar com esses vícios. Se o indivíduo, especificamente quanto profissional, consegue identificar cada um desses pecados bem como conhecer seus dinamismos, poderá, por meio das virtudes melhorar os processos do negócio. Desse modo, a temperança é o comportamento que orientará a pessoa a ter equilíbrio evitando a gula não só no que diz respeito ao consumo desenfreado de bebida e comida, mas também aos excessos de trabalho, da busca exacerbada por conhecimento, por poder, prestígio etc. A temperança propiciará, assim, o autocontrole.
Esta coluna é publicada às terças-feiras e é
elaborada sob a coordenação do administrador de empresas, especializado em engenharia econômica e negócios, conferencista e consultor empresarial,
Claudio de Lima Barbosa.
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