Para que servem os auditores?

Em: 24 de junho de 2010

Somos privilegiados por estarmos podendo viver em um momento de tão grandes acontecimentos, transformações, modificações e reafirmações de idéias, enfim, um momento singular, como em essência todos o são, mas “o nosso momento único”.
Enquanto nação, até por força deste mesmo fato, as transformações, precisamos tomar algumas decisões importantes. Dentre elas, a seguinte: que país queremos ser/ter no futuro, sob o ponto de vista da credibilidade?
Alguns poderão traduzir assim: o que queremos ser quanto crescer? E aí vem outra pergunta: é possível uma nação como um todo definir o que pretende ser? A esta pergunta me permitam responder prontamente que sim. O projeto Ficha Limpa está nos mostrando esta possibilidade, felizmente.
Mas, voltando ao tema, vemos e somos vistos pela comunidade internacional por aquilo que fazemos e entendemos como “aceitável” e que, portanto formam e demonstram nossa identidade ou determinam a “nossa moral”.
Para direcionar a discussão vamos colocar alguns dados apresentados pelo Prof. Dr. José Carlos Marion em alguns de seus trabalhos. Diz o ilustríssimo professor que é possível classificar os países em três níveis quanto à corrupção encontrada em cada um deles e que há uma relação inversamente proporcional entre a quantidade de auditores, institucionalmente presentes e aquele mesmo nível de corrupção. Ou seja, quanto mais auditores, menos corrupção. Senão vejamos os números: os países com menor nível de corrupção possuem de 106, Dinamarca, a 550, Nova Zelândia, auditores para cada 100 mil habitantes. Os países com médio nível de corrupção possuem de 87, Holanda, a 15 Alemanha, auditores por 100 mil habitantes e, finalmente, os países com alto nível de corrupção possuem de 9, Índia, a apenas 1, Brasil, auditor para cada 100 mil habitantes. Estas são exatamente as questões, senhores: a quem interessa termos um número maior de auditores? A quem interessa assim não ser? A quem interessa que estes auditores sejam selecionados mediante apenas um “concurso” que ignore a formação técnico-profissional do candidato e privilegie o questionável resultado de uma prova, ou pior ainda, que auditores sejam cargos de indicação política e não técnica? A quem interessa e qual tipo de país isso promove? Que poder a população realmente tem se não compreende os processos de utilização dos recursos públicos? E mais, se estes processos, e principalmente por isso, em muitos casos não passam de “aceitação documental de fatos inexistentes”, o que podemos esperar?
É claro, não estou culpando diretamente a ninguém. Estou afirmando que é preciso que as atuais estruturas de controle externo, as Auditorias Gerais, os Tribunais de Contas e outros órgãos de mesma finalidade, sejam imediatamente respeitados, reforçados e tenham sua autonomia e independência definitivamente conquistadas. Não há, em minha opinião, a mínima dúvida nisso, contudo, de que valem as opiniões técnicas? Nossa “cultura”, ou melhor, nossa “descultura” acerca dos efeitos altamente nocivos da corrupção nos leva a aceitar um medíocre “faz de conta com as contas” do Estado (o vício de linguagem foi proposital). Ou seja, alguns fazem de conta de controlam, outros fazem de conta de são controlados, e o pior, outros ainda, é claro, nós, fazemos de conta que isso não tem nada a ver conosco e ficamos todos “numa boa”. Vejam, é óbvio, temos boas experiências no país? Sim, é claro que temos, existem profissionais e, sim, políticos, que almejam ardentemente um país mais sério, infelizmente não são a maioria, pois se assim o fosse, certamente teríamos pelo menos cem vezes mais auditores em nossos órgãos de controle e a tríade dos poderes seria realmente efetivada.
Se tivéssemos que apontar uma sugestão para a melhoria nos processos de controle dos gastos públicos, diríamos então em alto e bom som: mais auditores já! E ainda: prisão aos maus auditores, já!

Mas para que servem e a quem defendem os auditores?
Os auditores servem e defendem a todos nós. São nossos olhos e ouvidos em todas as instituições. São a única barreira entre a prepotência política,o desmando administrativo, o malfazejo econômico e quem sustenta o sistema como um todo, nós. Mas, existem duas palavras citadas acima que devem pautar mentes e estruturas: independência e autonomia. Sem elas toda e qualquer ação viria a agravar o problema.
Estudos demonstram que cerca de 95% dos erros e fraudes nas estruturas organizacionais são diminuídos mediante a simples presença de uma auditoria (ver Instituto dos Auditores Independentes do Brasil).
Será que não está passando da hora de comprarmos verdadeiramente esta briga?
Alguns países já conseguiram avançar muito nesta guerra contra o descontrole, que é um dos alimentos da corrupção, a Itália, por exemplo, que conseguiu minimizar bastante a presença e ação da máfia em suas estruturas sociais. Penso que também nós brasileiros podemos diminuir o poder de nossos “poderosos chefões”, basta apertarmos o botão certo.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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