Com o objetivo de promover o bem comum como sua meta final, o Estado deve desempenhar numerosas funções que podem ser reduzidas em três: a primeira é de fazer as leis que regulem a vida dos cidadãos e o próprio funcionamento do Estado; a segunda é a de administrar os negócios públicos dentro da lei e a terceira é a de administrar a justiça, solucionando questões surgidas na aplicação das leis.
Essa diversidade de funções provocou uma série de estudos e teorias sobre os poderes do Estado que passa por Aristóteles, John Locke, Montesquieu, Saint Girons, entre outros pensadores, mas foi justamente Montesquieu que em 1748 elaborou um verdadeiro tratado sobre a teoria do Estado, com o título de De I’Esprit dês Lois, onde destacava que “tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse os três poderes: o de fazer leis, o de executar as soluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos”.
Para que isso não aconteça, é necessária a distribuição do poder entre três órgãos, independentes um do outro, mas harmônicos entre si. É a chamada teoria da tripartição do poder, que se tornou característica do estado moderno, não sendo correto falar de três poderes, pois o poder do Estado é um só. No entanto, o que realmente existe são três funções distintas do poder, com três órgãos especializados, mesmo que a expressão três poderes já esteja consagrada pelo uso popular, conforme Gleuso Damasceno Duarte.
O Estado moderno consolidou as três funções a partir dos pensadores dos séculos XVII e XVIII em Legislativa, Executiva e Judiciária. São, portanto, três funções ou poderes equiparados e independentes, não havendo nenhum que se sobressaia sobre os outros no tocante a responsabilidades ou direitos. Cada um, na esfera de sua função específica, exerce a totalidade do poder, e os três só são independentes no sentido de que se organizam mutuamente na finalidade essencial de compor os atos de manifestação da soberania estatal, mediante um sistema de freios e contrapesos, realizando o ideal de contenção do poder pelo poder. Segundo Montesquieu, “não haverá liberdade se o Poder Judiciário não for separado do Legislativo e do Executivo. Se unido ao Legislativo, a vida e a liberdade dos governantes estariam expostas à arbitrariedade, porquanto os juízes seriam legisladores. Se unido ao Poder Executivo, os juízes poderiam portar-se com violência e opressão. E seria o fim de tudo se o homem ou o mesmo órgão exercesse estes três poderes”.
Estranhamente de Norte a Sul do Brasil, tanto a nível federal, estadual e municipal, os chefes do Poder Executivo lutam disfarçada ou acintosamente para elegerem os presidentes das casas legislativas, demonstrando o predomínio do Executivo sobre os demais. Certos presidentes dos legislativos mal se elegem através de articulações políticas e já declaram publicamente apoio total e irrestrito ao prefeito, ao governador e ao presidente da república. É um pacote completo onde a independência é questionada, e o povo sequer lembrado. Pensando bem, tudo leva a crer que grande parte da população serve apenas como escada para que os politicos possam galgar lugares cada vez mais altos. Após as eleições esta escada é jogada fora, descartada até o próximo pleito, gerando um circulo vicioso do qual muita gente acaba não saindo ou se libertando, apesar de sabermos que a educação, a informação e conhecimento são caminhos libertadores.
Também é comum a luta para formar uma bancada forte, de preferência com maioria absoluta, para que se possa aprovar o que é do agrado e barrar o que desagrada ao mandatário maior. Mas sabemos que governar sem uma bancada de sustentação pode muito bem trazer dissabores e emperrar a administração.
Outro aspecto é o endeusamento de determinados governantes junto à população, que anestesia a opinião pública diante de fatos lamentáveis. Todos lembram dos estudantes caras pintadas que alavancaram a retirada de Collor, e que desapareceram ou se esconderam nos episódios relacionados ao escândalo do mensalão. No caso recente do ex-governador do Distrito Federal vivenciamos a pressão da população, com carreatas, ocupações de prédios e manifestações que não vimos na época do mensalão ou nas acusações feitas contra Sarney. A alta popularidade mascara reações e atitudes, levando a crer que a população, que tanto reclama das injustiças, também utiliza o sistema baseado em dois pesos e duas medidas, agindo por paixão e rejeitando a razão.
Poderes “independentes” e harmônicos.
Em: 6 de outubro de 2010
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Veja também

CNI avalia que Política Nacional de Minerais Críticos fortalece a indústria brasileira
17 de setembro de 2026

Grammy Latino 2026: Anitta, Marina Sena e Marisa Monte são indicadas
17 de setembro de 2026

Campanha de Lula aciona TSE e pede direito de resposta após propaganda eleitoral de Flávio
17 de setembro de 2026

Anúncio com a ressalva ‘só para rodar’ é sinal de documentação irregular
17 de setembro de 2026

Conselho sobre minerais críticos é detalhado com 18 competências e reforça teor geopolítico
17 de setembro de 2026

Brasil Soberano 3 começa a receber pedidos de empréstimos de empresas
17 de setembro de 2026

Produção agrícola brasileira superou R$ 927 bilhões em 2025
17 de setembro de 2026

Píer provisório do Chibatão segue para Itacoatiara e reforça logística durante vazante
17 de setembro de 2026