A Amazônia possui 109 espécies de primatas e Manaus tem, inclusive, um que se tornou o símbolo da cidade, o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), por ter seu habitat na região entre Manaus e Itacoatiara. Devido ao desmatamento constante no entorno da capital do Amazonas, o sauim-de-coleira sofre sério risco de extinção, bem como as outras espécies que habitam pelas redondezas. Para tentar minimizar essa situação, a professora Luciane Lopes de Souza, doutora em Zoologia e Ecologia coordena, na UEA, o Projeto Primatas, com várias ações que visam proteger não só o sauim-de-coleira, mas todas as espécies de primatas amazônicos, conforme falou, na entrevista a seguir, ao Jornal do Commercio.
Jornal do Commercio: O que é o Projeto Primatas e quais seus objetivos?
Luciane Lopes: O Projeto Primatas da UEA ou PPUEA é uma proposta de ensino, pesquisa e extensão da Universidade do Estado do Amazonas, que envolve vários projetos, inclusive o Espaço Primatas que é um programa de extensão da UEA. O PPUEA existe desde 2017 e começou com projetos de pesquisa com os primatas em cativeiro do Cigs (Centro de Instrução de Guerra na Selva) e com os grupos de sauins-de-coleira do Parque do Mindú, sendo que o projeto de extensão nasceu em 2018 com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA e com iniciativa dos próprios acadêmicos do curso de Biologia. O objetivo principal do PPUEA é buscar informações sobre a ecologia, comportamento e o estado de conservação das espécies de primatas amazônicos, com o foco em espécies ameaçadas. E através da ludicidade, ciência cidadã e divulgação científica levar às escolas e aos espaços não formais atividades de Educação Ambiental para tornar o conhecimento mais acessível ao público em geral, buscando sempre contribuir com a conservação da biodiversidade da nossa região.

JC: Existem cerca de 100 espécies de primatas na Amazônia. Quais espécies vocês estudam?
LL: Dados mais recentes revelam 109 espécies de primatas na região, mas existem espécies e subespécies.O nosso foco são todas as espécies de primatas da Amazônia e suas interações com a população humana também. Entretanto, damos ênfase aos primatas ameaçados de extinção, como o sauim-de-coleira.
JC: Quais ações promovem através do Projeto?
LL: As ações do PPUEA envolvem a Educação Ambiental nos espaços formais e não formais da cidade de Manaus e arredores, envolvendo a criação e aplicação de jogos educativos, oficinas, palestras e quiz. Criamos ainda um aplicativo chamado Macaqueiro Urbano para realizar a atividade de Ciência Cidadã, pois acreditamos que a sociedade precisa fazer parte desta agenda para a conservação da biodiversidade e alinhar as ações com os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável). Além disso, fazemos a divulgação científica também por meio das redes sociais, e mais trabalhos de extensão. Temos pesquisas com os primatas ocorrendo nas áreas protegidas como o Parque do Mindú, e no Zoológico do Cigs.
JC: Existe algum trabalho sendo realizado especificamente para a proteção do sauim-de-coleira, o símbolo de Manaus?
LL: Sim, estamos fazendo uma pesquisa em etnoprimatologia com o sauim-de-coleira, pois precisamos entender melhor as interações do sauim com a população de Manaus para que sejam reduzidas as ameaças e a população possa ajudar na conservação da espécie. Além disso, temos o programa de extensão Espaço Primatas que utiliza a Educação Ambiental para a conservação dessa espécie.
JC: O Projeto Primatas já fez alguma descoberta científica?
LL: As pesquisas que desenvolvemos com o sauim-de-coleira e a pesquisa sobre o comportamento e bem estar dos primatas cativos no zoológico do Cigs, especialmente os macacos-aranhas (Ateles paniscus), têm revelado dados científicos muito interessantes, que em breve serão publicados e poderão ser amplamente divulgados.
JC: Hoje, como está a situação dos primatas na região de Manaus, com os desmatamentos que não cessam?
LL: Atualmente a grande expansão urbana tem reduzido drasticamente o habitat dos primatas, que são as florestas. O crescimento desordenado não tem dado espaço para eles, por isso cada vez mais esses animais têm se aproximado das áreas urbanas e são vistos nas ruas, na fiação elétrica e nas escolas. Tem ainda o uso de macacos como pet que frequentemente encontramos em casas de particulares. Enfim, as ameaças têm aumentado enquanto as chances de sobrevivência têm sido reduzidas. Existem espécies que são tolerantes, ecologicamente falando, e outras bem menos. Para essas a situação é bem pior. Estamos vendo o que já ocorreu na Mata Atlântica e não devemos permitir que aconteça o mesmo na Amazônia.
JC: O Projeto Primatas é aberto à participação de pessoas, ou instituições, que queiram ajudar?
LL: Sim, com certeza. Como falei, temos um aplicativo para as pessoas que encontrarem primatas. Podem baixar este aplicativo no celular Android. Ainda temos um site para o acesso do público em geral. Neste site contamos um pouco da nossa história e das nossas produções: https://sites.google.com/view/projetoprimatasuea/p%C3%A1gina-inicial








