Produção acima da média no Amazonas

Em: 27 de junho de 2023

A Conab calcula que a safra de cana-de-açúcar 2023/2024 do Amazonas deve alcançar os maiores índices de crescimento e produtividade do país, além de recuperar parte das perdas do período anterior. O primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento mostra expectativa de produção de 276 mil toneladas para o Estado, uma escalada de 26,6% ante a safra de 2021/2022 (218 mil toneladas). A progressão no índice de produtividade deve chegar a 26,2%, com 71.484 quilogramas por hectare – já que a área de plantio sinaliza permanecer quase inalterada (+0,3% e 3.900 hectares). 

Na média nacional, a indicação é de uma alta de 4,4%, com mais de 637,09 milhões de toneladas colhidas, para uma área total de 8,41 milhões de hectares (+1,5%) e um índice de produtividade em 75.751 quilogramas por hectare (+2,9%). A unidade federativa com o maior aumento percentual na área de plantio é a Bahia (+15,5% e 65.900 ha). No texto da pesquisa, a estatal assinala que a região Norte deve ter incrementos de produção (+6,4%) e produtividade (+3,6%), “correspondendo aos investimentos em manejo e renovação das lavouras”. 

Caso o prognóstico da estatal se confirme, a cana-de-açúcar do Amazonas terá recuperado a maior parte das perdas anteriores, e o Estado terá galgado da última para a primeira posição do ranking. A cultura vem uma queda de 28,8% na safra de 2022/2023, após o ciclo virtuoso dos anos anteriores. A queda ocorreu em paralelo com a crise do IPI e o impasse no polo de concentrados para refrigerantes do PIM – o principal cliente dos produtores do Amazonas. A questão foi pacificada ainda no ano passado, com a revogação do decreto 11.052/2022 e a consequente manutenção do diferencial competitivo da ZFM.

A Companhia Nacional de Abastecimento, por outro lado, aponta que o fator preponderante para a performance negativa no Amazonas foi climático. “Os altos volumes de precipitações no período e consequentemente da redução na oferta de radiação solar, influenciadas pelo fortalecimento do fenômeno do La Niña nos últimos dois anos, foram motivos que levaram a essa redução na produtividade”, assinalou a estatal, no texto do levantamento anterior. 

Sem entrar em detalhes sobre o clima, a Conab desenha um cenário mais positivo para a cana-de-açúcar do Estado, nos próximos meses. “Para esta safra, a área plantada apresenta pequeno crescimento, quando comparada com o total de área que foi fechada na safra 2022/23. O plantio é todo mecanizado, sendo o processo para obtenção de mudas realizado de forma manual. A perspectiva é de uma produtividade com crescimento, quando considerado o fechamento da safra anterior, já que o excesso de chuvas, em 2022, prejudicou as lavouras naquela safra”, analisou o texto do estudo mais recente.

ATR e etanol

O desempenho estadual em valores de ATR (açúcar total recuperável), que é a soma total dos açucares contidos na cana efetivamente aproveitados para a indústria sucroalcooleira, também aparece com crescimento significativo. A Conab espera que o ATR total dispare 24,9%, na comparação da safra 2023/2024 (29.140 toneladas) com a de 2022/2023 (23.234 toneladas). Ainda assim, o número ficaria aquém do alcançado na safra de 2021/2022 (32.377 toneladas). Já a taxa de projeção para o ATR médio diminui para 1,3%, ao passar de 107 para 105,6 quilogramas por tonelada.

O percentual de aproveitamento da cana cultivada no Amazonas deve ser maior para a produção do açúcar. Segundo o levantamento, o Estado deve somar 14.900 toneladas para este fim, 23,14% a mais do que na safra de 2022/2023 (12.100 toneladas). O prognóstico também é positivo para o álcool hidratado, que deve chegar aos 6,495 milhões de litros, ficando 16,27% acima do patamar anterior (5,586 milhões de litros). A produção amazonense ainda é exclusivamente de álcool hidratado, não havendo dados sobre álcool anidro.  

A Conab confirma que a maior parte da colheita de cana-de-açúcar na região Norte ocorre entre agosto e março. Acrescenta também que, tanto pelo relevo acidentado, quanto pela disponibilidade de mão de obra, o percentual de colheita manual (74%) supera o mecanizado (26%), nos Estados nortistas. O Amazonas, entretanto, aparece como um ponto fora da curva, já que conta com 100% de sua colheita mecanizada desde a safra de 2015/2016. 

“Confiança e investimentos”

O presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, concorda que a cana-de-açúcar também sofre a pressão da escalada dos custos, em decorrência da guerra na Ucrânia, mas ressalva que conta com mercado consumidor crescente. Por isso, o dirigente estima que o ano pode ser não apenas de recuperação, mas também de crescimento efetivo para a cultura no Estado.

“Consideramos muito positivos esses números, mostrando o crescimento da produção no Amazonas. Essa estimativa se compatibiliza com as informações que temos recebido dos agentes privados, que estão ampliando a confiança e investimentos. Acreditamos que a expansão possa ser ainda maior, porque temos projetos novos, principalmente em áreas de cultivo, mas também de agroindústrias. Como exemplo, temos a ampliação da área privada de produção no Careiro Castanho”, comemorou.

O ex-superintendente da Conab, administrador com especialização na gestão de informação ao agronegócio familiar e empresarial, e colaborador do Jornal do Commercio, Thomaz Meirelles, também considerou os números positivos e concorda que a tendência é de melhora. Mas, destaca que o levantamento periódico da estatal para a cana-de-açúcar ainda se restringe a basicamente à produção de Presidente Figueiredo e lamentou que outras aplicações para a commodity, embora residuais, não sejam investigadas e divulgadas também. 

“Essa recuperação de produção, esse aumento, mostra que, com tecnologia, podemos conciliar produção e conservação ambiental no Estado mais preservado do mundo. Essa produção mostra que o Amazonas do agro empresarial e do agro familiar é perfeitamente possível. Quanto à Conab, penso que deveria levantar também a produção de cana que não tem o destino indústria”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar