Produção de bicicletas registra queda pior que o esperado no ano passado

Em: 19 de janeiro de 2023

A indústria de bicicletas do PIM fechou o ano com uma queda de dois dígitos, em resultado ainda pior do que o esperado, apesar do destaque positivo para os modelos elétricos. De janeiro a dezembro, os fabricantes do Polo Industrial de Manaus produziram 599.044 unidades, 20,1% a menos do que em 2021 (749.320). A projeção do segmento, já revisada para baixo em duas ocasiões, era consolidar 2022 com recuo de 15,9% (630 mil). Em função da sazonalidade, o recuo foi ainda mais acentuado na comparação de dezembro (14.580) com novembro (53.134), por uma diferença de 72,6%. Mas, saldo também veio 42,5% abaixo do patamar de 12 meses atrás (25.370).

Os números foram divulgados pela Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), em coletiva de imprensa realizada na terça (17). Ao contrário do ocorrido no início de 2022, e diante da performance abaixo do esperado, a entidade empresarial começa o ano com expectativas negativas para o subsetor. A estimativa é que a produção de bicicletas do PIM deve chegar ao final de 2023 com 570.000 unidades fabricadas, o que representa uma retração de 4,8% ante 2022. 

O subsetor encerrou 2022 na contramão do polo de motocicletas, que comemorou altas de produção e vendas. Na análise da Abraciclo, um dos motivos é a resiliência na crise de abastecimento de insumos. O deslocamento da demanda do mercado doméstico para produtos de maior valor agregado, em detrimento de “modelos de entrada”, também foi reforçado. Tanto que as exportações fecharam no azul. Vale lembrar, contudo, que algumas linhas de produção – notadamente as de bicicletas sem marchas – ficaram de fora da lista de produtos da ZFM salvaguardados pelo governo federal da perda de competitividade gerada pelos decretos de redução do IPI.

“Muitos desafios”

De acordo com o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, as empresas ainda têm “muitos desafios pela frente” neste ano e explica que, por isso, a perspectiva para 2023 é “bem conservadora”. O dirigente lembra que as áreas de logística, compras e produção dos fabricantes do PIM enfrentaram o seu ano mais desafiador em 2022. “Além do desabastecimento de peças e componentes, tivemos que ajustar o planejamento das unidades fabris para nos adequar à nova demanda do mercado, que pediu por modelos de médio e alto valor agregado”, ressaltou.

Gazola observa que o problema não se concentrou unicamente na oferta, uma vez que, apesar dos ajustes nas linhas de produção, os estoques nas lojas e nos centros de distribuição continuaram abastecidos para atender ao consumidor na maior parte do ano passado. O executivo acrescenta ainda que a base de comparação parece forte, ao dizer que o segmento teria atingido o seu auge durante os meses mais duros da pandemia e das medidas de isolamento e distanciamento social, quando a bicicleta se tornou “a grande parceira para o lazer, nos deslocamentos e na interação com a família”.   

O vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo rassalta que um dos principais focos de ações para 2023 será a readequação do abastecimento das linhas de produção dos modelos de médio e alto valor agregado para atender ao novo perfil do consumidor. E avalia que, diante do ‘empoçamento’ do mercado, uma série de promoções deverá ser realizada ainda no primeiro semestre, para diminuir os estoques das lojas. “Tanto a indústria, quanto os lojistas, precisam melhorar a gestão e o fluxo do caixa”, opinou.

Categorias e exportações

O mercado brasileiro continuou apostando nas Moutain Bikes, em 2022. Em números absolutos, essa foi a categoria que liderou o ranking de produção, com 373.501 unidades e 62,3% da oferta do PIM. Mas, a produção foi 19,7% menor do que a de 2021. Na sequência estão a Urbana/Lazer (156.019 e 26%), e a Infanto-Juvenil (48.438 e 8,1%) e a Estrada (10.239 e 1,7%), todas com declínio de vendas no ano passado. A exceção veio da minoritária Elétrica (1,8% do total), que avançou 5,4% na mesma comparação, com 10.847 unidades.

Segundo Gazola, as bicicletas elétricas estão cada vez mais presentes nas grandes cidades brasileiras. “As pessoas que optam pelo pedal buscam um estilo de vida mais saudável e em sintonia com o meio ambiente. A bicicleta elétrica facilita isso, oferecendo agilidade nos deslocamentos e comodidade para vencer os obstáculos do percurso”, frisou. “O custo para o consumidor ainda é alto. Por isso, seria interessante criar incentivos para a aquisição do produto, como já acontece em alguns países da Europa. Dessa forma, teríamos ganho de escala e a tendência de preços mais competitivos”, sugeriu.

O Sudeste foi a região que recebeu o maior volume de bicicletas fabricadas no PIM. No ano passado, foram enviadas 366.198 unidades para lá, no mês passado, o que corresponde a 61,13% do total fabricado. As posições seguintes foram ocupadas pelo Sul (104.616 e 14,46%), Nordeste (58.514 e 9,77%), o Centro-Oeste (38.808 e 6,48%) e o Norte (4.110 e 7,7%). No comparativo de dezembro, o Nordeste subiu para o segundo lugar, ultrapassando o Sul, mas as demais colocações permaneceram sem alterações.

Apesar da produção menor, as exportações encerram 2022 em campo positivo. De janeiro a dezembro, foram embarcadas 29.484 bicicletas “made in ZFM” para o mercado estrangeiro, o que configurou uma alta de 3,8% na comparação com 2021 (28.414). Conforme o levantamento do portal Comex Stat, o principal destino foi o Paraguai ficou, que recebeu 19.691, o equivalente a 66,8% do total. Em seguida estão o Uruguai (4.657 e 15,8%) a Bolívia (2.340 e 7,9%). Dezembro (2.278), entretanto, mostrou performances piores, tanto na variação mensal (-62,5%), quanto na anual (-54,1%).

Seca e inflação

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, reforçou que a raiz dos desempenhos divergentes dos polos de motocicletas e de bicicletas está no fato de que os serviços de delivery tendem a favorecer meios de transporte motorizados. As bicicletas por outro lado, estão encontrando maior demanda em um público de mais renda. O dirigente avalia que, embora a conjuntura econômica tenha reduzido o poder de compra do brasileiro, o futuro ainda é promissor. “Assim que a inflação for controlada, e os juros voltarem a cair, o consumidor irá retomar seus projetos de mobilidade urbana e lazer”, amenizou.

Já o presidente da Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), Roberto Moreno, apontou que a seca atípica de 2022 se aliou às crises logísticas decorrentes da pandemia para comprometer os resultados dos fabricantes de bicicletas da indústria incentivada de Manaus, principalmente na reta final do ano. “O abastecimento teve e ainda tem algumas dificuldades, devido à incapacidade de navios operarem com carga total na região. Alguns armadores com navios maiores tiveram que suspender a rota até Manaus”, finalizou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar