Produção industrial começa ano em queda

Em: 16 de março de 2022
Homem usando máscara de proteção trabalha numa usina siderúrgica. 2/3/2020. China Daily via REUTERS

A indústria amazonense começou o ano com saldo negativo, após escalar dois dígitos, em dezembro. Em mês de ômicron em alta e afastamento massivo de trabalhadores das fábricas, a manufatura do Amazonas encolheu até mesmo na comparação com janeiro de 2021 –período em que o Estado ainda atravessava sua segunda onda. Em relação a dezembro, mês sazonalmente fraco para o setor, o tombo foi de dois dígitos. Bebidas, bens de informática e eletroeletrônicos, entre outros segmentos, puxaram os números para baixo. O alívio veio do polo de duas rodas e dos subsetores de plástico e borracha.

Em síntese, a produção industrial do Estado desabou 13%, na virada de dezembro de 2021 para janeiro de 2022, em desempenho oposto ao do levantamento precedente (+14,3%). Foi o pior resultado nesse tipo de comparação, desde abril de 2020 (-48,9%).O confronto com janeiro de 2021 resultou em tropeço de 4,1%, eliminando o ganho anterior (+2,3%). O Amazonas segue no azul, no entanto, no acumulado dos 12 meses (+7,1%). É o que mostram os dados mais recentes da pesquisa mensal do IBGE para a atividade, em âmbito regional, divulgada nesta terça (15).

Ao contrário do ocorrido no levantamento anterior, a variação mensal da indústria do Amazonas teve (-13%) ficou bem abaixo da média nacional, que também foi negativa (-2,4%). Com isso, o Estado despencou da primeira para a última posição do ranking nacional do IBGE, que analisa mensalmente as indústrias de 14 unidades federativas. Ficou logo atrás de Minas Gerais (-10,7%) e Pará (-9,8%). Em contraste, Mato Grosso (+4%), Espírito Santo (+2,6%) e Bahia (+1,2%) ficaram no topo de uma lista com apenas cinco altas.

A expansão no acumulado dos 12 meses de 2021 (+7,1%) permitiu ao Amazonas se manter no quinto lugar do ranking brasileiro, além de superar novamente a média nacional (+3,1%). Santa Catarina (+8,5%), Minas Gerais (+8,3%) e Paraná (+7,8%) voltaram a sair na frente, enquanto Bahia (-12,5%), Pará (-6,8%) e Goiás (-3,4%) ficaram no rodapé. Já o decréscimo de 4,1% registrado pelo Estado na variação anual foi apenas um dos dez desempenhos negativos de um rol liderado por Mato Grosso (+43%) e encerrado pelo Pará (-24,4%).

Bebidas e eletrônicos

Na comparação com janeiro de 2021, a indústria extrativa (óleo bruto de petróleo) encolheu 1,4%. A indústria de transformação foi ainda mais longe e mergulhou 4,3%, eliminando parte do ganho anterior (+6,8%). Apenas quatro de seus nove segmentos investigados pelo IBGE puxaram a retração. A lista inclui produtos de borracha e material plástico (+33,7%); “outros equipamentos de transportes” (motocicletas e suas peças, com +26,7%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (conversores, alarmes, condutores e baterias, com +10,7%); e derivados de petróleo e combustíveis (+5,4%).

Em contrapartida, cinco divisões industriais do Amazonas amargaram queda. O pior número veio de impressão e reprodução de gravações (DVDs e discos, com -73,4%). Na sequência estão os subsetores de máquinas e equipamentos (condicionadores de ar e terminais bancários, com -23,9%); bebidas (-17,6%); produtos de metal (lâminas, aparelhos de barbear, estruturas de ferro, com -13,8%); e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (celulares, computadores e máquinas digitais, com -8,2%).

Cenário volátil

Em seu comentário para a reportagem do Jornal do Commercio, o supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, lamentou o resultado registrado pela indústria amazonense em janeiro e avalia que a conjuntura atual é muito volátil para permitir estimativas de curto prazo. Os entraves citados pelo pesquisador incluem os efeitos da redução do IPI e da guerra na Ucrânia na indústria da ZFM, assim como a alta da inflação, a estagnação do poder aquisitivo do consumidor, e a falta de insumos “em algumas plantas industriais”. 

“A indústria começou o ano em queda nas duas principais comparações: mês anterior e igual mês do ano anterior. Foi uma forte redução de produção. Isso fez o acumulado do ano iniciar no vermelho e reduziu, pelo menos por enquanto, o otimismo em relação ao setor. Nesse momento há um conjunto de fatores que jogam contra uma melhora do quadro para o desempenho da atividade. Com isso, fica difícil prever melhora a curto prazo”, ponderou.

Em texto postado no site da Agência IBGE de Notícias, o gerente da pesquisa, Bernardo Almeida, ressaltou que a queda mensal no indicador fez o Amazonas eliminar quase toda a expansão verificada em dezembro, no recuo mais intenso desde o auge da primeira onda da pandemia, em abril de 2020. “O setor de bebidas, que é muito forte na indústria local, exerceu a principal influência negativa no resultado amazonense”, ressaltou.

Demanda reprimida

O presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Wilson Périco, lembra que janeiro normalmente é um mês mais fraco para o setor, por motivos sazonais. O dirigente, entretanto, estranhou os números da variação anual, dadas as dificuldades enfrentadas pelo PIM naquela época, em razão da segunda onda. As fábricas chegaram a cortar turnos e volume de produção, para adaptar seus horários de entrada e saída aos parâmetros do toque de recolher do decreto estadual.

“Temos, por outro lado, alguns fatores que podem estar influenciando positivamente o polo de duas rodas, como a busca de meios alternativos de transporte. Sobre os outros segmentos, não sei dizer o motivo para a retração. Sei, sim, que todos tiveram um aumento grande de atividade, no final do ano. Talvez seja um reflexo disso, como o comércio estava abastecido e a demanda é menor no começo do ano, para reposição desses produtos no mercado”, conjecturou. 

Já o presidente da Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), Roberto Moreno, avaliou que, “sem dúvida”, a ômicron foi responsável pela queda dos indicadores da indústria amazonense, em janeiro, especialmente em virtude do afastamento de muitos trabalhadores das linhas de produção. O dirigente destaca que a nova variante trouxe reflexos de “um final de ano castigado” para toda população e comércio, com o reflexo na produção industrial. 

“O setor de duas rodas, ainda tem uma demanda reprimida pelos vários meses de interrupção em suas linhas de produção, somando-se todas as paradas, desde o início da pandemia. Mas, há a questão da guerra na Ucrânia. Espero sinceramente que o conflito cesse de imediato, no máximo nos próximos dias. A alta no petróleo pode trazer um declínio em nossa economia, com possibilidades de greves que podem ocorrer no segmento dos transportes. É muito preocupante”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar