Solidariedade como estratégia religiosa

Em: 25 de janeiro de 2016
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Este ano a Fundação Alan Kardec completa 36 anos em Manaus como uma das instituições religiosas mais respeitadas do Amazonas. Ao longo dos anos a Fundação conseguiu agregar seguidores e admiradores da doutrina do educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, cujo pseudônimo Alan Kardec se tornou conhecido no mundo como o elo de ligação entre vivos e desencarnados.

Trabalhando em silêncio e com o apoio de vários pessoas, só quem vive no universo da Fundação, instalada num prédio imenso localizado na avenida Mário Ypiranga Monteiro, 1507, Adrianópolis, é sabedor das inúmeras atividades assistenciais e de caridade que eles praticam. E tudo isso sem receber verba federal, estadual ou municipal.

Por mês são distribuídos quase seis mil pratos de sopa para mendigos e moradores de rua. Também são cadastradas pessoas necessitadas para que elas recebam cestas básicas. Aos sábados é servido um lanche. O estabelecimento recebe uma média diária de 80 pessoas cujo único alimento é o prato de sopa, ou o lanche dos sábados.

Uma das formas de a Fundação arrecadar dinheiro para seu sustento, além da doação de quem trabalha ou frequenta o local (centenas de anônimos), é com um bazar de onde todo dinheiro arrecadado vai para a Fundação. Ninguém trabalha por dinheiro e todos só visam ajudar o próximo. O bazar funciona às segundas e quintas, das 17h às 20h30; e aos sábados, das 15h às 18h.

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”. Esse é o lema de Kardec, escrito em seu túmulo e obedecido por seus seguidores. Para eles o bem deve ser feito para qualquer pessoa, independente de quem ou o que ela seja, por isso não são poucas as pessoas que chegam à Fundação com os mais diversos problemas, como depressão, brigas em família, desemprego, alcoolismo, uso de drogas, e tantos outros, à procura de ajuda, e são atendidos pelos médiuns, recebendo passes e apoio e saindo de lá bem mais confortados.

A Fundação Alan Kardec funciona diariamente, de domingo a domingo. Atende adultos e jovens, à tarde, às terças, quartas e sábados; à noite, às segundas e quintas; e pela manhã, aos domingos, quando recebe as crianças. Palestras públicas são realizadas às terças e sábados à noite. Informações: (92) 3642-6638.

Quase dez mil haitianos

Desde 2011 a igreja de São Geraldo, localizada no bairro homônimo, teve uma visualização bem acentuada em Manaus depois que passou a receber centenas de imigrantes haitianos fugidos dos destroços de suas cidades, após o terremoto que destruiu boa parte do pequeno país da América Central, em 2010.

Quem acompanhou esse processo desde o começo foi o padre gaúcho Gelmino Costa, há oito anos pároco do bairro, pertencente à ordem dos Scalabrinianos, missionário de São Carlos. Padre Gelmino, com seu ato de acolher imigrantes, segue o lema de sua ordem que diz, “eu era estrangeiro e me acolhestes – Mt 25,35”.

A finalidade da ordem dos Scalabrinianos (fundada em 1887 pelo beato João Batista Scalabrini) é a formação religiosa, moral, social e legal dos imigrantes. “Os haitianos ganharam destaque pela quantidade de indivíduos que chegaram, mas antes deles já acolhíamos peruanos, colombianos e mesmo brasileiros que chegavam a Manaus sem ter onde ficar e onde comer”, falou.

“Podemos ser ricos, ou seguir fielmente uma religião, mas se não tivermos caridade com o próximo, de nada valem as nossas outras atitudes”, ensinou, e voltou a lembrar das palavras de Mateus. “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me”.

“Aqui os imigrantes recebem abrigo e alimentação. No caso dos haitianos, como o caso deles era mais grave, pois chegavam aos montes (chegamos a ter 1.400 deles aqui em poucos dias), tivemos que tomar outras medidas, como ensiná-los a falar o português, depois, à medida que o tempo foi passando, introduzi-los no mundo do trabalho, depois documentá-los e legalizá-los no país”, contou.

Padre Gelmino lembra que nesses cinco anos de imigração haitiana, quase dez mil deles passaram pela igreja de São Geraldo. “Acredito que ainda tenham cerca de 1.500 em Manaus, mas a maioria foi pra São Paulo e outras cidades do Sul, acreditando que lá teriam mais chances de viver melhor”.

Ele explicou que a Igreja Católica tem congregações para ajudar os fieis nas mais diversas situações, uma delas é a Pastoral dos Migrantes, a qual ele integra, cujo lema é “acolhida, organização e defesa dos direitos dos/das migrantes, através da formação, incidência e articulação”.

“Nossa convivência com os haitianos mostrou que eles são politizados e a maioria, evangélicos, mas frequentavam a nossa igreja. Nos empregos, quando o patrão tentava, de alguma forma, enganá-los pelo fato de serem estrangeiros, logo se viam diante da Justiça do Trabalho. Isso fez com que passassem a ser temidos pelos patrões”, falou.

Com o tempo surgiram outros problemas. “Começaram a chegar mulheres grávidas sozinhas, pessoas doentes necessitando de atenção integral e idosos. A todos tivemos que dar a mesma atenção”. Ajudando o padre, 10 a 12 pessoas da paróquia e o padre Valdecir Molinari, idealizador da fábrica de picolés. “Na realidade não queríamos esse tipo de trabalho informal, mas o ganho é rápido e, às vezes, eles ganham bem mais do que se estivessem recebendo salário numa empresa”.

Atualmente a igreja de São Geraldo abriga numa sala próxima, uma creche onde 25 brasileirinhos, filhos de haitianos, com idades entre 3 meses e 3 anos, ficam enquanto seus pais trabalham. “Agora as mulheres montaram um brechó, aí do lado e tentamos montar uma cozinha industrial, mas não deu certo. Esse é o nosso trabalho. Ajudar o próximo. Para isso estamos aqui, nesse mundo”, finalizou. Quem quiser ajudar o padre Gelmino, pode ligar para (92) 9 8843-8176.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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