O clima de insegurança se abateu definitivamente sobre o empresariado local, isto porque a falta de crédito e a desconfiança em torno dos juros nos financiamentos em prazos mais longos acenderam a luz amarela em torno das operações de venda.
Independente dos comentários com tom otimista emanado pelo governo federal desde os primeiros sinais da crise mundial, o diretor executivo da Aceam (Associação de Comércio Exterior da Amazônia), Moacyr Bittencourt, disse que a insegurança surge do fato de até o momento não haver um comunicado oficial garantindo as mesmas taxas de juros que as empresas vinham obtendo no exterior na faixa de 6% a 12% ao ano ou se as instituições governamentais cobrarão as mesmas taxas e encargos financeiros locais. O executivo avaliou que, diante dessas incertezas, a tomada de crédito pelos empresários junto aos organismos financeiros do mercado interno vem sendo postergada, afetando o planejamento de novas operações. “As linhas de créditos internas, que fomentam atividades industriais e comércio, são alimentadas por linhas de créditos externas que os bancos nacionais fazem uso. Acontece que as taxas de juros que financiavam as operações subiram mais de 30% em alguns casos, o que empata com o ganho cambial, que os exportadores teriam em função da alta do dólar”, enfatizou.
Mas para o consultor empresarial Teruaki Yamagishi, algumas empresas tomaram a decisão errada nos negócios durante a grande oferta de crédito no mercado internacional, fechando muitos contratos a preços inflados. O empresário, criticando duramente a postura que o governo quer adotar, virando ‘sócio’ das empresas com aplicação do dinheiro público, disse que o governo tem de tomar cuidado ao copiar soluções externas. “Aqui, nossa situação é outra, embora a tendência de muitos empresários seja empurrar para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) e outros bancos públicos o custo dos seus erros”, asseverou.
Venda de reservas pode se tornar medida acertada em médio prazo
Por outro lado, Yamagishi disse que a operação de vender reservas para direcionar às empresas exportadoras pode ser uma medida bem acertada em médio prazo, porque se os empresários do comércio exterior saírem desse impasse atual podem voltar a exportar e novos dólares entrarão no país. “Com esse volume de moeda estrangeira, o Banco Central vai recompor as reservas. Além disso, ajudar a resolver o impasse do financiamento com liberação de compulsório pode dar certo se os bancos não continuarem retendo esses recursos como estão fazendo até agora. Mas mandar para o contribuinte o custo dos erros das empresas é inaceitável”, concluiu.
Embora não se saiba até quando irá durar a maior crise da economia mundial nas últimas décadas, pelo menos um ponto é consenso entre os empresários: os sistemas financeiros e contábeis de bancos e de empresas de todos os setores terão de se reordenar. No entendimento do professor de economia e presidente do Grupo Bemol, Jaime Samuel Benchimol, a quantidade de dinheiro despejada pelos bancos centrais em diversos países – inclusive no Brasil – para salvar o sistema financeiro é inédita na história e, por isso, deve ser observada com maior atenção pelos empresários.
Para Benchimol, se houve ceticismo quanto ao antigo Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional) de 1995, hoje ninguém questiona a necessidade de salvaguardar o mercado e o crédito, com a utilização de reservas cambiais e/ou recursos públicos. “O Banco Central disse, recentemente, que dos US$ 23 bilhões de reservas usados para atender a pressão no mercado de câmbio, só US$ 3.2 bilhões foram realmente vendidos. O resto foi usado em várias operações de venda com compromisso de recompra. Resta esperarmos que essas ações dêem solidez ao mercado interno e tragam de volta o otimismo do empresário para continuar apostando no crescimento da economia”, considerou.






