Mizura é a personificação de uma criatura da floresta criada a partir dos mitos da Amazônia. Quem desejar conhecer algumas delas ‘pessoalmente’ pode visitar a exposição ‘Mizuras de Ojara’, que faz parte da reabertura da Casa das Artes (rua José Clemente, 564, Largo de São Sebastião, Centro), ocorrida na sexta-feira, 10.
Ojara é o nome artístico de Maria Suely, que adotou esse nome há alguns anos ao vê-lo num bar, no Nordeste.
“Me disseram que era um pássaro oriental. Como gostei do nome, resolvi que colocaria num CD, que pretendia gravar. Acabei adotando Ojara, como nome artístico, para mim mesma”, contou.
Na realidade, a obra de Ojara exposta na Casa das Artes não são mizuras, mas peças, as mais variadas, que a artista cria a partir de inimagináveis objetos cujo destino era o lixo tipo cabos USB com defeito, carretéis, lacres de latinhas de cerveja, cabos de metal de coadores de café, tampinhas de refrigerante, apenas para citar alguns, e que saídos da imaginação e das mãos da artista, viram obras de arte.
“Eu sempre gostei de arte, de cantar, fazer teatro. Atuei junto com Zezinho Corrêa numa peça. Nas artes plásticas quem me descobriu foi ninguém menos que Buy Chaves. Um dia mostrei para ele uns desenhos que havia feito com caneta Bic, e ele gostou. Disse que era para eu fazê-los em tamanho maior. Eu duvidei. Achei que Buy estivesse brincando, mas segui seus ensinamentos. Pintei várias telas no tamanho de 1m x 1m20, expus no Ariaú Tower, e vendi tudo. Aí me empolguei”, recordou. Era o ano de 2000.
Homenagem à mãe

Nos anos seguintes, Ojara não mais parou de produzir e expor em vários lugares da cidade como o Espaço Cultural Mar Azul, Açaí e Cia, Espaço Cultural Galvez, Icbeu, Inpa, Assembleia Legislativa, Centro Cultural Cláudio Santoro, Ufam, Caua, Sesc, até que, em 2010, suas exposições cessaram.
“Nesse tempo, fiz cursos de arte, estudei artes e, não sei por que, simplesmente parei de expor, mas não de produzir. Nunca parei de produzir. Não paro de produzir. Produzo arte todo dia”, afirmou.
Somente em 2021 Ojara voltou para os focos da ribalta com a exposição ‘O grito de Ojara’, no Espaço Sala Oca. Agora, na Casa das Artes, ela apresenta peças com objetos recicláveis e uma instalação feita de isopor.
“Não sigo o estilo de ninguém. Minhas criações surgem de minha imaginação”, explicou.


“Ojara cata coisas perdidas, desimportantes. E ela as reconfigura, dá-lhes vida. Suas invencionices podem parecer nada a quem nada quer encontrar, mas podem significar e ressignificar muito para quem olha além das imagens e figuras criadas. Não há criação definida para o seu desenho. Ela a encontra ao modelar os objetos. Ojara já foi pássaro, já foi totem, já foi quadro pendurado na parede. Hoje Ojara é catadora de arte”, definiu a escritora Regina Melo.
Nessa nova exposição, Ojara faz uma homenagem à dona Palmira, sua mãe, cearense exímia costureira.
“A palavra mizura é uma homenagem a ela. Quando fiz minha primeira exposição, os quadros que ela não gostava, chamava de mizura. Ela dizia: “menina, que mizura é essa?”. Suas críticas me doíam, mas eu relevava, porque era minha mãe, e aceitava. Na realidade ela definia como mizura devido não entender o que via. Ela faleceu e nessa exposição, agora, eu a homenageio”, falou.
“Quando minha mãe costurava, sobravam carretéis de linha, e eu dizia para ela guardar que um dia usaria nas minhas peças. Nessa exposição tem até antena parabólica e todas as peças estarão à venda. Vou levar um cabide, de madeira, com peças de roupa pintadas a mão. Caiu nas minhas mãos, vira arte”, concluiu.
21 artistas
Fechada desde dezembro, a Casa das Artes reabriu com cinco exposições, sendo duas coletivas e três individuais e a participação de 21 artistas de variadas manifestações artísticas. O espaço é separado por quatro salas, e em cada uma, novas propostas de atividades artísticas trazem trabalhos em pinturas, desenhos e instalações de diferentes formas. O espaço do corredor também é utilizado para exposições.
= Sala 1, ‘Coletiva 10’. Obras de dez artistas estudantes da Faculdade de Artes da Universidade Federal do Amazonas. A mostra apresenta materiais que focam na poética do eu, expressando sentimentos, vivências e modos de ser e existir.
= Sala 2, ‘Mizuras’, de Suely Ojara, une fragmentos recicláveis, reconfigurando o fazer e o olhar sobre o fazer artístico.
= Sala 3, ‘Territórios em cores’, do artista de grafite Cria. 20 peças de telas e paredes que representam a relação do artista com a natureza.
= Sala 4, ‘Canto das árvores’, obras de novos artistas de Parintins, com abordagens e perspectivas a respeito de suas crenças e tradições regionais.
= Espaço/Corredor, colagem digital de Micael Santos, se refere a um ‘Carnaval atemporal’.
A Casa das Artes funciona de terça-feira a domingo, das 15h às 20h, com entrada gratuita.
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