Culinária une Brasil e Portugal

Em: 4 de março de 2023

Portugal é conhecido mundialmente pelo seu vinho do Porto, e também pelas sardinhas consumidas e comercializadas há milênios pelos lusos. Mas o país irmão possui uma gastronomia apreciada no mundo inteiro no quesito doces e salgados. Os doces portugueses são únicos e, curiosamente, a maioria deles tem receitas sigilosas e milenares repassadas de avós, para mães e destas para as filhas, geração após geração.

Manaus, por ter tido desde a sua fundação, boa parte da população formada por portugueses, o que acontece até os dias de hoje, conhece muito bem alguns desses doces e salgados como o pastel de nata, ou pastel de Belém; o pastel de Chaves; a pata de veado, a queijadinha, o guardanapo, a torta de Azeitão, os covilhetes, as quiches, e as empadas, apenas para citar os mais populares. Embora quase não se perceba, o interesse por esses produtos é tanto que Manaus até tem uma fábrica, a Sabores de Tradição, os produzindo e distribuindo para toda a cidade.

“Tudo começou com o português Jorge Carlos Neves, em fevereiro de 2010. Ele iniciou a fábrica no Cide (Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial) e quando a empresa se firmou, em 2017, resolveu vendê-la para o casal de empreendedores Olavo e Alessandra Mourão, que mantiveram o mesmo padrão da Sabores de Tradição e seus produtos”, explicou Marcelo Gonçalves, representante comercial da empresa.

Jorge Carlos, nascido em Coimbra, vive em Manaus desde 2008. Observando o interesse dos manauaras pela gastronomia portuguesa, resolveu investir no negócio e, com o tempo, passou a ‘amazonizar’ os produtos criando, por exemplo, o Bolo Amazônico, de olho na exportação para a Europa. Chegou a ser proprietário da Cafeteria do Largo, onde servia os doces e salgados portugueses, e aprimorava os sabores amazônicos. Atualmente continua com sua empresa no Cide e seu foco, agora, são os chocolates Arabu preparados com cacau orgânico combinado com extratos de frutas amazônicas. 

Vários pastéis

Enquanto isso, Olavo e Alessandra continuaram com a Sabores de Tradição.

“O Jorge ficou por dois anos dando consultoria para o casal, a fim de que eles mantivessem o padrão dos doces e salgados. A pandemia fez a produção da Sabores ser afetada, mas agora voltamos com tudo, retomando o ritmo normal, de antes”, afirmou Marcelo.

Desde que chegaram ao Brasil, há mais de cinco séculos, os portugueses trouxeram suas iguarias junto, enquanto outras foram sendo criadas ao longo do tempo. Uma que continua até hoje entre as preferidas pelos brasileiros é o pastel de nata, ou de Belém.

“O pastel de Belém é o preparado nesse bairro português, já o de nata são os feitos em qualquer outra localidade de Portugal. Originalmente eram preparados em mosteiros e conventos e o que muda, de um lugar para outro, é o creme da cobertura. Apesar da palavra nata, tais pastéis não contém essa gordura do leite. O pastel de Belém foi criado pelos monges do Mosteiro dos Jerônimos no início do século 19 e se tornou uma marca registrada de Portugal. Ambos têm massa folhada crocante e levam gema de ovos, leite e açúcar”, falou.

Diferente dos pastéis de Belém, e de nata, que têm o formato redondo, o pastel de Chaves tem o formato característico, de meia-lua, dos pastéis.

“Esse pastel tem a massa finamente folhada, e é recheado com um preparado à base de carne de vitela picada”, disse.

“Como o nome indica, é originário da cidade de Chaves. É tão admirado pelas pessoas da região onde surgiu que, em 2015, recebeu a certificação de Indicação Geográfica Protegida, dado pela União Europeia, o que significa que mantém as características, qualidade e modos de confecção passados de geração para geração”, revelou.

Reforça a união

Apesar da variedade de doces, com praticamente todos tendo como base ovos, leite e açúcar, o que muda são os formatos, até engraçados, e alguns ingredientes.

“Os nomes pata de veado, e guardanapo, já dizem tudo. O primeiro é um pão de ló recheado com doce de ovos, cortado em fatias diagonais, no formato de uma pata de veado, barradas com doce de ovos e polvilhadas com coco ralado e um fio de canela. O segundo é preparado com uma massa de bolo fofinha, que leva apenas ovos, gemas, açúcar e farinha. Quando fica pronto, ainda quente, é retirado da assadeira e recebe uma generosa camada de doce de gemas, então é dobrado como um guardanapo”, detalhou.

Outra característica dos doces é, como no Brasil, cada região ter os seus específicos.  

“A queijadinha, por exemplo, um dos poucos que não têm origem nos conventos das ordens religiosas, é típico da região Centro-Oeste de Portugal. É uma mistura de ovos e queijo Serra da Estrela, o mais antigo dos queijos portugueses, feito com leite de ovelha. Essa mistura é colocada sobre uma finíssima massa de trigo e levada para assar em forno baixo. A torta de Azeitão faz parte de qualquer roteiro de passeio à região de Setúbal e à serra da Arrábida. Feito à base de ovo, açúcar e farinha de milho, é consumido como sobremesa, ou para adocicar o café ou chá do lanche”, informou.

“A Sabores de Tradição ainda produz covilhetes (pastéis), quiches (torta salgada) e empadas. Estas últimas têm origem portuguesa, mas se tornaram tão populares no Brasil que não podem faltar em festas de aniversário e lanchonetes, ou seja, a rica culinária de doces e salgados portugueses só reforça a união entre os dois países”, finalizou.

Informações: 9 9144-0890.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar