Venda de carros novos esfriou nos primeiros meses do ano

Em: 15 de março de 2023

A vendas de veículos novos no Amazonas esfriou, entre janeiro e fevereiro. Apenas ônibus e implementos rodoviários conseguiram avançar no mês, que teve quatro dias úteis a menos. Os emplacamentos somaram 4.888 unidades em todas as categorias e resultaram em um tombo de 8,81% em relação ao mês anterior (5.360). Mas, houve alta de 20,57% sobre o mesmo mês de 2022 (4.054), período da terceira onda da covid-19 no Estado. O desempenho, neste caso, foi alavancado pelas motocicletas, com um discreto aumento para os automóveis. No bimestre, o segmento escalou 32,66% (10.248).

Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que se amparou nos emplacamentos do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e levou em conta todos os tipos de veículos – incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus e motocicletas. Vale notar que os dados locais devem ser levados também sob a perspectiva do transit time (tempo de trânsito) entre faturamento e emplacamento, um hiato que pode durar 30 dias, em virtude da logística de translado entre as fábricas do Centro-Sul e as concessionárias no Estado.

Conforme o levantamento, o Amazonas acompanhou a média nacional em todas as comparações. Fevereiro de 2023 registrou o licenciamento de 245.276 unidades, de Norte a Sul do país, o que representou um retrocesso de 8,62% na comparação com janeiro (268.415). O saldo veio 10,50% mais elevado do que o conseguido 12 meses atrás (221.978). Em dois meses, as vendas expandiram 13,47% e chegaram a 513.691 unidades. A Fenabrave atribuiu o resultado à sazonalidade e ao enfraquecimento da base de comparação, reforçando que a projeção para 2023 ainda é de estabilidade de vendas.

Automóveis x motocicletas

Cinco das sete categorias listadas pela Fenabrave registraram piora no Amazonas, na variação mensal de fevereiro. O pior desempenho proporcional veio de “outros veículos” – que inclui tratores, máquinas agrícolas e carretas –, com retração de 34,04% e somente 31 unidades comercializadas. Foram acompanhados por motocicletas (-11,31% e 3.098), comerciais leves (-10,74% e 374), caminhões (-10,64% e 42) e automóveis (-5,97% e 1.229). Em contraste, ônibus (+205,26% e 58) e implementos rodoviários (+100% e 56) decolaram. 

O número de categorias com expansão de vendas aumenta no confronto com fevereiro do ano passado. A lista inclui ônibus (+728,57%), implementos rodoviários (+86,67%), motocicletas (+32,45%), “outros veículos” (+10,71%), e automóveis convencionais (+3,54%). Na outra ponta, somente caminhões (-10,64%) e comerciais leves (-7,88%), apresentaram redução no volume comercializado. No acumulado dos dois primeiros meses de 2023, o rol de segmentos no azul se restringiu às motos (+62,70%), implementos rodoviários (+52,73%), “outros” (+30%) e carros de passeio (+2,88%).

Embora tenham diminuído o passo em janeiro, as motocicletas voltaram a aumentar a diferença em relação aos veículos de quatro rodas no ranking das categorias veiculares mais comercializadas no Amazonas. A participação das motos no bolo de vendas do Amazonas continuou predominante, avançando de 52,44% para 64,31%, diante do mesmo mês do ano passado. Em sentido contrário, a soma dos automóveis e comerciais leves voltou a reduzir sua fatia na mesma comparação, com 32,48% (2022) contra 43,87% (2022).

Gargalo no crédito

De acordo com o gerente regional de Seminovos do Grupo Revemar, Rubem Lima, o primeiro bimestre do ano foi de vendas “acima do esperado” para a empresa, que trabalha nos segmentos de carros novos e usados. O dirigente ressalva, no entanto, que o crescimento foi uma realidade apenas para estes últimos, com índice de 20% de alta. O mercado de automóveis zero quilômetro, por outro lado, ainda estaria esbarrando nas dificuldades geradas pela escalada dos preços e dos juros, diante das restrições orçamentárias e do endividamento do consumidor. A consequência é que as vendas encolheram 7%, neste caso.

“O problema não é de demanda, mas de inadimplência mesmo. Tanto que, no caso dos automóveis novos, metade das vendas já é à vista. O crédito está muito difícil e só costuma sair para o cliente com perfil AA, com as dívidas em dia e renda adequada. Os carros usados e seminovos levam vantagem, porque tiveram reduções de preços. E tem muita gente trocando o carro que tem por um modelo popular. Mas, temos de ser otimistas. Embora as vendas tenham reduzido a marcha, logo após o Carnaval, voltaram a crescer com força nos primeiros dez dias deste mês”, ressaltou.  

Em entrevista anterior à reportagem do Jornal do Commercio, o gerente geral da Cometa Motocenter, Agno da Silva Montalvão, lembrou que o mercado local de motocicletas vem de um boom de vendas desde o segundo trimestre de 2022, com o arrefecimento da pandemia, e acrescenta que o resultado só não foi melhor por falta de produtos. O executivo avalia que a tendência dos próximos meses será de mais aquecimento e melhor equilíbrio entre a demanda e a oferta, permitindo um estoque mais satisfatório.  

“A questão das filas melhorou bastante, principalmente no caso dos modelos de giro, a exemplo das motocicletas de 125 e 160 cilindradas. A procura, neste caso, é maior entre os profissionais que desejam trabalhar nos serviços de delivery e, principalmente entre as empresas que trabalham com a locação de veículos destinados a essa função”, avaliou.  

“Ponto de equilíbrio”

Em comunicado à imprensa, o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta Júnior, destacou que, a despeito da variação mensal negativa, a média de vendas diárias subiu. “Tivemos apenas 18 dias úteis em fevereiro e conseguimos evoluir 11,16% no volume diário de veículos sobre o resultado de janeiro. Na média, foram emplacadas 12.801 unidades, diariamente, em fevereiro, contra 11.516 unidades em janeiro deste ano. A elevação sobre o ano anterior está muito relacionada ao auge da crise de falta de produtos que atingiu o setor automotivo, principalmente, nos anos de 2021 e 2022”, analisou.

O dirigente pontuou que, mesmo com a nova retração mensal, a categoria dos automóveis vem conseguindo chegar gradualmente a um “ponto de equilíbrio” entre oferta e demanda, além de registrar escalada de vendas nos modelos elétricos. Andreta Jr observa, por outro lado, que o mercado de motocicletas segue com “bons números”, apesar da “seletividade no crédito”, e em sintonia com as vantagens inerentes ao veículo, em um panorama de cidades congestionadas e alta nos custos de aquisição e manutenção dos automóveis.

Conforme o presidente da Fenabrave, diante dos desafios conjunturais que se apresentam para um segmento que trabalha com bens duráveis, como a alta taxa de juros e a sazonalidade de início de ano, os resultados do bimestre são positivos. “Praticamente, todos os segmentos registram alta no acumulado, em relação a 2022, com destaque para o mercado de motocicletas, categoria que tem boa expectativa de crescimento para este ano, segundo nossas projeções”, encerrou.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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