Amazonas entre a confiança e o peso das dívidas

Em: 1 de outubro de 2025

A leitura conjunta dos indicadores de setembro/2025 revela um quadro desafiador para a economia de Manaus e do Amazonas. O Índice de Consumo das Famílias (ICF) voltou a subir e atingiu 119,8 pontos, reforçando a percepção de melhora no emprego e no otimismo quanto ao futuro. No entanto, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostra que a elevada carga de dívidas continua a restringir a capacidade de consumo. Ambas pesquisas foram desenvolvidas pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Já o Relatório Focus do Banco Central sinaliza um ambiente macroeconômico ainda restritivo, marcado por juros elevados e crescimento moderado.

O ICF mostra que 53,4% das famílias se sentem mais seguras no emprego do que há um ano, e 73% acreditam em melhora profissional nos próximos seis meses. Além disso, a avaliação da renda atual segue positiva, com 58,6% relatando melhora em relação ao ano anterior. A perspectiva de consumo também cresceu, alcançando 129,3 pontos, o melhor resultado dos últimos meses. Esses dados indicam que a confiança das famílias se mantém firme, especialmente na percepção de renda e trabalho.

Entretanto, o endividamento segue como o grande freio ao consumo. Em setembro, 86,6% das famílias de Manaus declararam estar endividadas, patamar recorde. Entre elas, 55,9% têm contas em atraso, e 21,5% já admitem que não terão condições de pagar no próximo mês. Além disso, mais da metade dos inadimplentes acumula atrasos superiores a 90 dias, o que indica uma situação de insolvência persistente. O cartão de crédito, usado por 73,5% das famílias, e os carnês de loja, presentes em 51,2% dos lares, permanecem como principais fontes de dívida.

Esse descompasso entre confiança e restrição financeira cria um paradoxo: as famílias acreditam em um futuro melhor, mas o presente é marcado pelo peso das dívidas. O comprometimento médio da renda com débitos é de 35,4%, sendo que 39% das famílias destinam mais da metade do orçamento mensal ao pagamento de dívidas. Isso reduz drasticamente a margem para novas compras e explica por que o subíndice de momento para aquisição de bens duráveis permanece em campo negativo, marcando apenas 70,7 pontos.

No plano nacional, o Relatório Focus, de 26/09/2025, reforça esse quadro de contenção. A inflação projetada para 2025 é de 4,81%, ainda acima da meta contínua de 3%, enquanto a Selic permanece em 15% ao ano, patamar que restringe fortemente o crédito. O PIB deve crescer apenas 2,16% em 2025, com desaceleração esperada em 2026. O câmbio estabilizado em torno de R$ 5,50 por dólar e a dívida pública em trajetória de alta completam um cenário macroeconômico que limita a expansão da demanda interna.

Para o Amazonas, essa combinação de fatores significa um consumo contido, mesmo diante de expectativas positivas de emprego e renda. O endividamento elevado e os juros altos travam a transformação da confiança em consumo real, penalizando especialmente as famílias de menor renda, que concentram a inadimplência. O risco é de que, sem medidas de renegociação de dívidas e estímulos ao crédito responsável, a economia local permaneça em compasso de espera, com a confiança funcionando mais como esperança do que como motor efetivo do crescimento.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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