O que é a ignorância?

Em: 15 de janeiro de 2026

No longo debate a favor e contra a ignorância, as diferentes posições obviamente dependem do que os detentores dessa ignorância querem dizer com o termo. A definição tradicional é simples: a ausência ou privação de conhecimento. Tal ausência ou privação é muitas vezes invisível para o indivíduo ou grupo ignorante, uma forma de cegueira que tem consequências gigantescas,incluindo os desastres que serão discutidos aqui nesta parte.

Essa definição tradicional é às vezes criticada como ampla demais, demandando assim algumas distinções. Por exemplo em inglês a ignorância é às vezes distinta da nesciência, e ambas, do desconhecimento. Há também “insapiciência” (unknowing) um termo que, em inglês, parece ter sido cunhado ontem, mas remota ao autor anônimo do século XIV de um tratado sobre misticismo. Distinções semelhantes existem em outras línguas. Os alemães, por exemplo, referem-se a “Unwissen“( ignorância) e “Nicht-Wissen” (desconhecimento). O sociólogo Georg Simmel, por exemplo, discutiu o que ele chamou de “a normalidade cotidiana do desconhecimento” (Nicht-Wissen. Infelizmente, autores diferentes usam esses termos de maneiras diferentes.

Por outro lado, aquilo no qual geralmente se concorda é a necessidade de distinguir entre os “desconhecidos desconhecidos (aquilo de que nem fazemos ideia de que exista), como no caso da descoberta da América por Colombo enquanto procurava “as Índias”. Embora essa distinção tenha sido feita anteriormente por engenheiros e psicólogos, ela é frequentemente  atribuida a Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa dos Etados Unidos.

Em uma entrevista coletiva sobre os preparativos para a Invasão do Iraque, Rumsfeld foi solicitado a apresentar provas das armas de destruição em massa de Saddam Hussein e respondeu da seguinte forma:

Relatórios que dizem que algo não aconteceu são sempre interessantes para mim, porque, como sabemos, há coisas conhecidas que são conhecidas; há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que há desconhecidos que sabemos que são desconhecidos; ou seja, sabemos que há coisas que não sabemos. Mas também há incógnitas desconhecidas — aquelas que não sabemos que não sabemos. E, se olharmos para a história de nosso país e de outros países livres, é com essa última categoria que tende a ser difícil de lidar.

Independentemente de sua utilização por Rumsfeld para desviar de uma pergunta incômoda, a distinção entre “conhecimentos conhecidos”, “desconhecimemtos conhecidos” e “desconhecimentos desconhecidos continua sendo útil.

A PSICOLOGIA DA IGNORÂNCIA

E quanto aos conhecidos que são desconhecidos?  Essa expressão, que parece apropriada para discutir o que normalmente é descrito como “conhecimento tácito”, foi empregada num sentido bastante diferente pelo filósofo Slavoj Zizek, que apontou que Rumsfeld “se esqueceu de acrescentar (…) o quarto termo crucial: o ‘conhecido desconhecido’ (…) o inconsciente freudiano, o ‘ conhecimento que não conhece a si mesmo’, como dizia Lacan”, incluindo o próprio conhecimento de Rumsfeld a respeito das tortura em Abu Graib.

Freud estava interessado em outros tipos de ignorância inconsciente. Em sua famosa discussão sobre a interpretação dos sonhos, ele perguntou se os sonhadores sabem ou não o que significam seus sonhos, concluindo que “é bem possível, e até altamente provável , que o sonhador saiba o que seu sonho significa; só que ele não sabe que sabe”. De modo mais geral, Freud estava interessado no que seus pacientes não queriam saber sobre si mesmos. “Não quero saber” será um termo recorrente no livro. Quem demonstrou um imteresse particular pela ignorância foi o pouco ortodoxo freudiano Jacques Lacan. Ele descreveu os psicanalistas como as pessoas que não sabem o que é a psicanálise (e sabem que não sabem disso), ao contrário das pessoas que pensam que sabem, mas não sabem. Lacan considerou a  ignorância como uma paixão, tal como o amor e o ódio, sugerindo que alguns pacientes passam de resistir ao autoconhecimento  para desenvolver uma paixão por ele.

A SOCIOLOGIA DA IGNORÂNCIA

“Se existe uma sociologia do conhecimento, então também deveria existir uma sociologia da ignorância”. Tal sociologia poderia começar com a seguinte pergunta: quem não sabe o que? Vale lembrar que “somos todos ignorantes , só que sobre coisas diferentes”, como observou o romancista e humorista norte-americano Mark Twain em um de seus numerosos aforismos sobre o assunto. Por exemplo, existem cerca de 6 mil idiomas falados no mundo hoje, e até mesmo os póliglotas ignoram 99,9% deles. E ainda, a propagação de coronavirus de 2019 foi prevista por epidemiologistas que haviam descoberto o perigo da transferência de diferentes doenças de animais selvagens para humanos. Por outro lado, os goernos ou não sabiam ou não quiseram tomar conhecimento dessa previsão, então foram pegos despreparados.

Muitos desses desastres, alguns dos quais serão discutidos em capítulos posteriores, ocorreram porque aqueles que sabiam das coisas não podiam agir, enquanto aqueles que agiram não sabiam. A destruição do World Trade Center, em 2001, oferece um exemplo dramático de fracasso na comuicação. Agentes dos serviços de segurança já suspeitavam de que certos indivíduos planejvam um ataque terrorista, mas suas advertênciias foram perdidas entre as muitas mensagens enviadas aos níveis superiores en Washington, em um exemplo notável de “sobrecarga de iformação”. Como a conselheira de Segurança Nacional norte-americana Condolezza Rice admitiu mais tarde, “havia muita conversa fiada como parte do sistema.

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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