O agronegócio brasileiro e as guerras globais

Em: 12 de junho de 2026

Por força da agricultura geral do Brasil, o país é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, mas suas importações de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) – percentual em relação ao consumo total – vem aumentando desde 1988 para mais de 80% em 2024, por causa da guerra da Ucrania e Rússia. Ressalte-se que a produção nacional de fertilizantes é historicamente muito inferior à demanda interna e o seu uso cresce a cada ano.

Por outro lado, o alto valor importado de fertilizantes pelo Brasil se traduz em um descompasso na balança comercial. E, de acordo com a SECEX (Secretaria de Comércio Exterior), em 2024, o valor total exportado do complexo foi de cerca de US$ 278 milhões, enquanto o valor total importado foi de cerca de US$ 13,5 bilhões, um déficit de aproximadamente US$ 13,2 bilhões.

O papel central das importações de fertilizantes na agricultura brasileira e suas implicações econômicas é estratégico. Conforme o Governo Federal, os fertilizantes mais aplicados no país são os macronutrientes primários: fertilizantes nitrogenados (N), fosfatados (P) e potássicos (K) que podem ser aplicados separadamente ou em complexo NPK.

Essa necessidade de importar um alto volume de fertilizantes acarreta custos e a um maior risco para os produtores brasileiros: são produtos com custos atrelados ao dólar e os gastos com fertilizantes possuem uma alta sensibilidade ao câmbio e choques externos, como as guerras da Ucrania e no Oriente Médio.

Como pontuam os economistas pesquisadores do CEA (Clube de Economia da Amazônia) indicando que a EMBRAPA (Empresa Brasileira de pesquisas Agropecuária) em ações de PD&I terão que estar atentas às boas práticas alinhadas com o conceito de ESG (Environmental, Social and Governance), uma vez que ele será base de projetos para a toda a cadeia produtiva de fertilizantes. Assim, alinhando-se à tendência de fomentar a melhoria da performance agroambiental no Brasil agrícola.

É nesse contexto em que se tende a favorecer, no longo prazo, o aumento na quantidade de projetos em redes interdisciplinares envolvendo diversas organizações de excelência nas suas especialidades (tratando-se de fertilizantes). Contudo, os projetos poderão englobar desde a mineração até a aplicação no campo para quatro grandes cadeias: nitrogenados, fosfatados, potássicos e, sobretudo, as cadeias emergentes. Cinco cadeias emergentes se fortalecerão no Brasil, tropicalizando os insumos para a agricultura, que são elas: 1) fertilizantes orgânicos e organominerais; 2) subprodutos com potencial de uso agrícola; 3) bioinsumos/biomoléculas/bioprocessos para a nutrição vegetal; 4) nanotecnologia e novos materiais, digitalização da agricultura; e 5) remineralizadores de solo.

Segundo a EMBRAPA, dessas cinco cadeias emergentes, são esperados os seguintes resultados para o horizonte 2030: a) contribuição com pelo menos 20% da demanda nacional de nutrientes; b) contribuição de processos biológicos, aumentando para 25% a contribuição da FBN (Fixação Biológica de Nitrogênio)  em culturas como milho, cana-de-açúcar, café trigo e pastagens, sobretudo em sistemas integrados; c)diminuição das emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa)  pela agricultura, por meio de fertilizantes de eficiência aumentada; d) reciclagem de resíduos e subprodutos orgânicos; e) e intensificação do uso de insumos biológicos, que pode chegar a uma queda de 15% das emissões de GEE na agropecuária.

Segundo analista de mercado da Agrinvest, Jeferson Souza, “O agro nacional depende de fertilizantes que vêm de fora, porque não conseguimos produzir esses insumos aqui no volume que precisamos. O Brasil, no seu ápice de produção de nitrogenados, por exemplo, atendeu 25% de sua necessidade em 2015, de lá para cá, a demanda aumentou com a ampliação de áreas de plantio, mas a produção do insumo não cresceu na mesma proporção.”

Entretanto, conforme dados do governo federal, as importações de adubos químicos representaram 5,52% de tudo que o Brasil comprou no mercado externo no ano passado. Em valor, o produto foi o segundo mais importado, alcançando US$ 15,46 bilhões, atrás apenas dos óleos combustíveis, que somaram US$ 15,55 bilhões, são considerados o volume de importação, os adubos lideraram o ranking brasileiro em 2025, com 45,48 milhões de toneladas, um volume recorde.

O pessoal do CEA tem observado que a agricultura brasileira é uma das maiores potências do mundo, porém depende fortemente de insumos externos. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. Essa dependência expõe o agronegócio à volatilidade do mercado internacional e a choques logísticos e de preços na cadeia de suprimentos.

Observem os cenários que abrangem a questão dos fertilizantes no Brasil:

1) O Cenário de Importação:

Dependência Externa: Cerca de 85% dos fertilizantes minerais (Nitrogênio, Fósforo e Potássio — NPK) vêm de fora do país.

Principais Fornecedores: O Brasil importa grande parte de suas matérias-primas de países como Rússia, China e Canadá.

Impacto no Custo: Os fertilizantes representam, em média, 23% do custo total para o cultivo de grãos como soja e milho, tornando as margens dos produtores altamente sensíveis às variações do dólar e aos conflitos geopolíticos.

2) Principais Consumidores e Nutrientes:

Culturas Destaque: A soja domina o cenário, demandando mais de 40% de todos os fertilizantes aplicados no país. Junto com milho e cana-de-açúcar, o trio responde por mais de 73% do uso desses insumos.

Nutrientes: O potássio é o principal nutriente aplicado (38%), seguido por cálcio (33%) e nitrogênio (29%).

3) Por que os solos brasileiros precisam tanto de adubo?

O solo predominante nas principais regiões agrícolas do Brasil é o Latossolo, que é naturalmente ácido, profundo e pobre em nutrientes (particularmente em fósforo e potássio).

O uso contínuo de fertilizantes é o que garante os altos índices de produtividade que tornaram o Brasil um líder global na exportação de alimentos.

4) Alternativas e o Futuro do Agro:

Para reduzir essa vulnerabilidade, o Brasil tem investido no Plano Nacional de Fertilizantes, que busca diminuir a dependência externa para cerca de 45% até 2050. As estratégias incluem:

5) Produção Nacional: A retomada e ampliação de fábricas e minerações de fertilizantes em território nacional.

6) Bioinsumos: O uso massivo de tecnologias biológicas (como a inoculação de bactérias do gênero Bradyrhizobium em leguminosas), que capturam nitrogênio do ar e o fixam nas plantas de forma natural.

7) Adubação Verde e Orgânica: Práticas de manejo que melhoram a qualidade do solo e diminuem a necessidade de adubos químicos.

Em 2022 o Brasil lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, uma ação na tentativa de reduzir a dependência externa, essa estratégia prevê o aumento da produção nacional a fim de atender de 45% a 50% da demanda interna até 2050.

 

(*) Economista (UFAM), Engenheiro (UFAM), Administrador (UFAM), Mestre em Economia (FGV), Doutor em Economia (UNINI-Mx), Pesquisador Sênior (CEA), Consultor Empresarial e Professor Universitário: [email protected]

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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