Em pouco tempo, a inteligência artificial generativa (IAG) passou a fazer parte do cotidiano acadêmico. No artigo publicado no JCAM(https://tinyurl.com/52xm3pta), foram dadas dicas para os alunos usá-las com sabedoria em suas atividades acadêmicas. Este artigo foca os gestores educacionais e professores, apresenta cinco estratégias adotadas pelas melhores universidades do mundo para preparar a comunidade acadêmica a usar corretamente estas tecnologias.
Segundo o QS World University Rankings 2027 [1], as 10 melhores universidades do planeta são: 1) Massachusetts Institute of Technology (MIT-EUA); 2) Imperial College London (ICL-RU); 3) Stanford University (EUA); 4) University of Oxford (RU); 5) Harvard University (EUA); 6) University of Cambridge (RU); 7) California Institute of Technology (Caltech-EUA); 8) ETH Zurich (Suíça); 9) UCL (Reino Unido) e 10) National University of Singapore (NUS-Cingapura).
Com essa lista em mão, adotou-se a seguinte pergunta: “Como estas universidades estão preparando a sua comunidade para usar as IAGs corretamente em suas atividades acadêmicas? Para responder, adotou-se uma pesquisa documental junto aos sites oficiais destas universidades, resultando na sistematização de cinco estratégias que podem ser úteis para nossas escolas e universidades.
1ª estratégia: em vez de proibir, ensine a usar
O MIT, seguido por ICL, Stanford e Oxford, deixaram de perder tempo debatendo se a IA deve ser permitida e buscaram definir como usá-la bem. Proibir ferramentas que já estão no bolso de todos se mostrou pouco eficaz; ensinar a usá-las tornou-se a estratégia predominante. O ponto em comum é que a tecnologia só gera valor educacional quando professores e estudantes são preparados para utilizá-la de forma crítica, ética e transparente.
2ª estratégia: forneça acesso seguro com formação
A Oxford tornou-se a primeira universidade do Reino Unido a oferecer licenças gratuitas do ChatGPT Edu a todos os funcionários e estudantes [2], decisão precedida por um teste piloto de um ano que envolveu 750 funcionários [3]. O acesso, que inclui também Copilot, Gemini e NotebookLM, é sustentado por políticas, treinamento gratuito e uma rede de embaixadores de IA [4].
A Harvard segue um caminho parecido, pois criou o AI Sandbox, uma plataforma própria que reúne modelos de IA de diferentes empresas em um ambiente protegido. Nela, as informações digitadas por alunos e professores não são usadas para treinar ferramentas abertas ao público [5]. Isso também garante igualdade de acesso, já que nem todos os estudantes podem pagar por versões comerciais. Oferecer ferramentas sem formação transfere riscos à comunidade; oferecer ambas cria condições para o uso responsável.
3ª estratégia: prepare os professores: experimentar para ensinar
A formação docente é o eixo dessas estratégias. Neste sentido, o ICL lançou uma plataforma chamada Generative AI & Education Guidance Hub, que apresenta as IAGs para ajudar a melhorar a qualidade do ensino e das avaliações. Além disso, o ICL oferece um curso introdutório de IAG para todos os funcionários, com foco em abordagens críticas, e orienta os docentes a submeter suas avaliações a um “teste de estresse” para decidir quando incentivar ou desencorajar o uso da IA [6].
No MIT, há o Teaching + Learning Lab, setor que ajuda docentes e gestores a aprimorarem o ensino e a experiência de aprendizagem dos estudantes. Este setor oferece o AI Policy Planner, que ajuda o professor a redigir uma política de uso de IA para sua disciplina, justificada pelos objetivos de aprendizagem, em um processo que leva de cinco a trinta minutos [7]. Em Harvard, o Derek Bok Center levou a 18 departamentos da Faculdade de Artes e Ciências uma oficina de 60 minutos sobre as aplicações da IAG no ensino e na aprendizagem [8].
Por sua vez, em Stanford, a Vice-Reitoria de Educação de Graduação (VPUE) criou a plataforma IA encontra a Educação em Stanford (AIMES), destinada a impulsionar e apoiar uma abordagem crítica da IAG nos contextos de ensino e aprendizagem da universidade. A AIMES oferece uma biblioteca digital comexemplos de atividades, estratégias de ensino, orientações para políticas de IA em disciplinas, formação para docentes, consultorias e oficinas, além de uma comunidade para intercâmbio de experiências. Também apoia projetos de inovação e revisão curricular relacionados à IA [9].
Em comum, essas ações partem do princípio de que o professor precisa experimentar a tecnologia antes de orientar seus alunos.
4ª estratégia: crie regras claras em cada disciplina
Na Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, o seu Guia orienta que todos os docentes devem informar aos alunos a política de IA de cada curso, e a instituição oferece modelos que vão do uso plenamente incentivado ao restrito [10]. Há também soluções simples, como o modelo de “semáforo” adotado pelo professor da Harvard Kennedy School, Teddy Svoronos [11]. Cor verde: o aluno pode usar sem restrições – incentiva a experimentação, inclusive com plataformas de IA ou tutores personalizados. O estudante reflete sobre a ajuda recebida e os limites da ferramenta; Cor amarelo: uso permitido com restrições – o professor precisa explicitar quais usos são aceitos e quais não são; Cor vermelho: uso proibido de IA: reservado, por exemplo, a tarefas em que a IA comprometeria o objetivo de aprendizagem.
Essa clareza reduz a insegurança dos estudantes e evita casos de má conduta nascidos de mal-entendidos. Também reconhece que cada área do conhecimento tem necessidades próprias: o que é aceitável em programação pode não ser em uma disciplina de redação.
5ª estratégia: prepare os alunos
Além das dicas do artigo citado na introdução deste artigo, o foco é o pensamento crítico. O Imperial recomenda checar cada afirmação para evitar “alucinações”, preservar a própria voz na escrita e, quando exigido, registrar os comandos usados, a data e o resultado obtido [12]. Oxford lembra que essas ferramentas erram e têm vieses, que todo conteúdo deve ser revisado por humanos e referenciado, e que a IA deve apoiar, e não substituir, o julgamento humano [13]. Stanford publicou um guia para ajudar os estudantes a decidir de forma informada sobre o uso dessas ferramentas [14]. O objetivo é formar usuários capazes de questionar respostas, e não apenas de obtê-las.
Como conclusão, as melhores universidades tratam a IA como competência a ser ensinada, não como ameaça a ser proibida. Acesso seguro, formação docente contínua, regras claras por disciplina e alunos treinados para verificar, citar e declarar o uso da IA formam um modelo que pode inspirar instituições brasileiras de qualquer porte.
E para ajudar o(a) leitor(a) a se aprofundar no assunto, recomenda-se a leitura de duas obras publicadas em 2024 pela UNESCO: a primeira, destinada aosdocentes, define 15 competências em 5 dimensões, entre elas a mentalidade centrada no ser humano, ética e pedagogia com IA [15]; a segunda, para os estudantes, organiza 4 competências centrais, incluindo ética e compreensão das técnicas de IA [16]. Ambas colocam o ser humano, e não a máquina, no centro das decisões.
Obs: As IAGs Claude e Perplexity foram usadas para o auxílio redacional, checagem de fontes e organização de referências, sempre sob revisão crítica do autor. As referências encontramse em https://tinyurl.com/358ysfez
Prof. do Dep. de Eng. de Produção da UFAM e Pós Doutor em Inovação pela Universidade de Manchester. Site www.jgsilva.org







