Cigás diz que dívida não é dela

Em: 15 de agosto de 2014
Lino afirma que débito bilionário com a estatal é responsabilidade da Amazonas Energia
Lino afirma que débito bilionário com a estatal é responsabilidade da Amazonas Energia

O diretor-presidente da Cigás (Companhia de Gás do Amazonas), Lino Chíxaro, afirmou ontem ao Jornal do Commercio que a distribuidora não é devedora do débito de R$ 2,57 bilhões à Petrobras, apontado nas demonstrações de resultados da estatal referentes ao segundo trimestre de 2014, relacionada à compra de gás natural. Segundo o gestor, a dívida pertence à Eletrobras Amazonas Energia, que seria quem de fato usa o gás natural para a geração de energia nas termelétricas do Estado, cabendo, portanto, à Cigás o papel de intermediária. De acordo com Chíxaro, a produção e o transporte do gás de Urucu para Manaus pertencem exclusivamente à Petrobras; enquanto a distribuição dentro de Manaus é exclusiva da Cigás.
“A Cigás, efetivamente, não deve nada. É uma dívida suposta. Há um contrato bilateral e a Cigás, na condição de única distribuidora de gás, é obrigada a receber esse gás da Petrobrás e repassá-lo à Eletrobras Amazonas Energia. A Amazonas Energia só pode comprar da Cigás, mas o gás é todo da Petrobrás”, disse.
Ele informou ainda que Eletrobras Amazonas Energia paga pelo gás fornecido pela Petrobras através da CCC (Conta de Compensação de Combustíveis) que os Estados do Sudeste e Sul pagam para subsidiar a energia no Norte. Contudo, com a reforma que foi feita pela presidente Dilma no setor elétrico, foi retirada a autonomia das CCCs e levada para o Tesouro Nacional. Após a mudança, a Amazonas Energia não recebe este recurso da União desde agosto do ano passado, o que justificaria o não pagamento do gás pela concessionária à Companhia de Gás.
“A grande dívida que existe é da Amazonas Energia que, por sua vez, também não é culpada. O culpado é o governo federal que não repassa para a Amazonas Energia esta verba. Neste contrato, se há inadimplência, ou seja se a Amazonas Energia não pagar a Cigás para repassar à Petrobrás, esse crédito passa imediatamente para a Petrobras. É uma seção de crédito”, declarou.
Ainda segundo Lino Chíxaro, Petrobras e Amazonas Energia vêm mantendo reuniões frequentes, para as quais a Cigás nem sequer é convidada, para tratar dessa dívida e a forma de como pagar.
“Não é de hoje que Petrobras e Amazonas Energia se reúnem, trocam correspondências para o acerto dessa dívida. Tanto a Cigás não tem nada a ver que não somos sequer chamados a essas reuniões”.

Relatório
Chíxaro justificou a citação do nome da Cigás nos demonstrativos de resultados da Petrobras pelo fato de que a distribuidora seria a responsável pelo repasse do pagamento à estatal, mas que isso seriam questões meramente burocráticas.
“Contabilmente, a responsabilidade inicial de repasse era da distribuidora. Então, contabilmente o nome da Cigás aparece como o responsável por repassar. Nosso nome apareceu só por obra e arte da burocracia brasileira. Na verdade, nós somos apenas intermediários”, disse.
Ainda nas palavras do diretor-presidente, do montante de R$ 2,5 bilhões apontados pela Petrobras como dívidas, apenas uma margem pequena -3% a 4% deste valor -pertence à Cigás.
A AM Energia não paga só pela distribuição. Compra-se a distribuição, que é de 3% a 4% deste total. O restante, que é o valor da molécula do gás somado ao investimento que a Petrobras fez no gaseoduto, é repassado. Este é o grande valor. Desses R$ 2,5 bi nós só temos para a Cigás 3,5%. A Eletrobras está em dia conosco. Eles pagam a nossa parte. A parte da Petrobras é o que ela não paga”.

Números
Ele informou ainda que a Cigás é superavitária, tem recursos em caixa e que continua mantendo investimentos em distribuição de gás na capital.
“Investimos, só neste ano, mais de R$ 30 milhões em gasodutos no Distrito Industrial e agora assinamos contrato para mais R$ 16 milhões em gasodutos. A empresa está super saneada, não deve a ninguém. Nossos fornecedores são todos pagos em dia”, informou.
A Eletrobras Amazonas Energia não respondeu à reportagem até o fechamento desta matéria. A assessoria disse que as explicações somente poderiam ser feitas hoje.
De acordo com matéria publicada pelo Brasil Econômico nesta quinta-feira, a Amazonas Energia é a distribuidora que mais deve entre o grupo Eletrobras. Segundo a publicação, o passivo com fornecedores da distribuidora amazonense mais do que dobrou este ano, passando de R$ 3,4 bilhões em dezembro para R$ 7,8 bilhões no final de junho. A dívida do grupo Eletrobras com fornecedores cresceu 45,6% no ano, chegando a R$ 12,3 bilhões ao final do segundo trimestre. A maior parte dos débitos refere-se à compra de combustível para térmicas em sistemas isolados da região Norte. No segundo trimestre, a Eletrobras registrou prejuízo de R$ 105 milhões, com forte impacto do aumento das despesas com compra de energia no mercado de curto prazo.
“O Tesouro está segurando a CCC, que deveria ser entregue às distribuidoras federalizadas para pagar o combustível, e isso vem provocando um problema de fluxo de caixa na Eletrobras”, comenta Nivalde de Castro, professor do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico) do Instituto de Economia da UFRJ.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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