Um dos custos mais importantes dos regimes democráticos é o da participação popular. Refiro-me aqui especificamente aos custos de transação, pois as instituições precisam, de tempos em tempos, rever seus métodos e criar mecanismos capazes de concretizar a participação política em sociedades de massas.
Não é tarefa fácil.
Os cidadãos nem sempre estão preocupados com participação política; tampouco demonstram interesse contínuo por partidos, sindicatos, associações ou qualquer forma permanente de engajamento. O cidadão comum — o homem das multidões — preocupa-se, na maior parte do tempo, apenas com a vida cotidiana: o trabalho, as contas do mês, os afetos familiares, o entretenimento e os pequenos dilemas da vida ordinária.
A política lhe parece distante, complexa e abstrata; em outros caos, apenas um jogo sujo dos poderosos.
Sua participação, portanto, limita-se, muitas vezes, ao comparecimento periódico às urnas e à manifestação emocional nas redes sociais, onde elogios e condenações substituem a reflexão sistemática e a ação coletiva. Uma participação que frequentemente produz a sensação de pertencimento político sem, contudo, alterar concretamente as estruturas de poder.
E não nos iludamos: a alienação participativa é, em grande medida, um imperativo básico das democracias contemporâneas. O cidadão-total imaginado pela teologia política de Jean-Jacques Rousseau, plenamente integrado à vontade geral e continuamente mobilizado pela vida pública, constitui uma raridade histórica, quase sempre limitada a pequenas comunidades de baixa densidade demográfica e relativamente homogêneas.
Entretanto, a partir do último quarto do século XX, sobretudo após o fim da Guerra Fria, observa-se uma reorientação significativa das formas de participação democrática: a emergência das lutas identitárias.
Se os dois séculos anteriores foram marcados pela centralidade da indústria, do trabalho fabril, da luta de classes e das grandes ideologias universalistas, o cenário contemporâneo deslocou parte substancial da mobilização política para o terreno das identidades culturais, simbólicas e subjetivas.
A raça reaparece como categoria política central não apenas como herança biológica ou marcador fenotípico, mas como experiência histórica compartilhada de exclusão, invisibilidade e violência. A luta racial contemporânea reivindica reconhecimento, reparação histórica e ocupação de espaços simbólicos antes monopolizados por grupos dominantes.
A língua também se converte em instrumento de afirmação política. Em diversas partes do mundo, idiomas regionais, dialetos e formas particulares de expressão tornaram-se mecanismos de resistência cultural diante da homogeneização global promovida pelos grandes centros econômicos e midiáticos. As clivagens linguísticas deixaram de ser meros meios de comunicação e transformaram-se em território político.
A ideia de origem comum igualmente ressurge como força organizadora. Povos, etnias, comunidades tradicionais e grupos regionais mobilizam narrativas ancestrais e mitológicas para reivindicar pertencimento, autonomia e reconhecimento. Em tempos de globalização acelerada, a busca por raízes converte-se em resposta psicológica à sensação de desenraizamento produzida pela modernidade.
A religiosidade, por sua vez, retorna ao espaço público com intensidade renovada. Ao contrário das previsões sociológicas da secularização acelerada e do advento da laicização do Estado, a religião não desapareceu; ela se reorganizou politicamente em torno de partidos, movimentos sociais e grupos militares.
A sexualidade também assume dimensão política decisiva. As disputas contemporâneas sobre gênero e orientação sexual não dizem respeito apenas à esfera privada, mas à própria legitimidade pública das formas de existência. O corpo transforma-se em território político e a identidade sexual converte-se em linguagem de reivindicação de direitos.
A estetização da luta política alcançou, assim, um novo patamar histórico.
As ruas não desapareceram, mas foram parcialmente substituídas pelas redes sociais como espaço privilegiado da disputa simbólica por espaços. Em parte, o protesto físico cede espaço à performance digital; o militante tradicional divide espaço com o influenciador político; o panfleto transforma-se em postagem; o debate ideológico é frequentemente reduzido a slogans, hashtags e códigos morais de reconhecimento grupal.
Os antigos sistemas ideológicos universalistas — a exemplo do liberalismo, do socialismo, do nacionalismo etc. — fragmentaram-se em múltiplas microcomunidades identitárias — minarquismo, ecossocialismo ou etnonacionalismo, por exemplo —, cada qual portadora de suas próprias linguagens, símbolos e sensibilidades. O pertencimento político passa a operar menos por programas econômicos amplos e mais por identificações emocionais e culturais.
Em larga medida, a luta identitária é pós-materialista.
Sua realização desloca-se da infraestrutura material para a superestrutura simbólica e ideológica. O eixo central das disputas deixa de residir exclusivamente nas relações de produção e passa a incorporar intensamente as relações culturais de reconhecimento e de consumo ideologicamente orientado. A política deixa de habitar apenas o parlamento, os sindicatos e os partidos. Ela infiltra-se no cotidiano, nos hábitos culturais, nos algoritmos, nas plataformas digitais e até mesmo nas formas de entretenimento.
O problema central até aqui talvez resida no fato de que a fragmentação identitária dificulta a construção de horizontes universais compartilhados. Quanto mais a política se organiza em torno de identidades particulares, mais difícil se torna a formulação de projetos coletivos abrangentes capazes de articular diferenças sem dissolvê-las.
A democracia contemporânea vive, portanto, uma tensão permanente: de um lado, a legítima necessidade de reconhecimento das múltiplas identidades sociais; de outro, a necessidade igualmente indispensável de preservação de algum sentido comum de pertencimento político.
Sem identidade, não há reconhecimento. Mas sem universalidade mínima, talvez não haja comunidade política possível.
*é cientista político







