A mosca que se engole no setor aéreo do Amazonas

Em: 9 de julho de 2025

Por princípio, as oportunidades surgem nas imperfeições de mercado. Todas as decisões empresariais estivessem nos níveis ótimos, teriam dimensionado a oferta no exato montante das demandas e ninguém teria nem lucro nem prejuízo. Em outras palavras, tudo que há para fazer está naqueles cenários em que “tem alguém deixando dinheiro na mesa”, ou “tem alguém engolindo mosca”.
Em muitos desses casos o interessado não seria apenas um indivíduo que poderia ousar e buscar ganhar seu lucro, mas toda uma sociedade à espera dos bens e serviços. Daí alguém precisa ir ao público demonstrar que a tal escassez nos aflige desnecessariamente.
Assim ocorre na logística amazonense como um todo, e o setor aéreo em particular. Como bem nos ensina o professor Augusto César, os investimentos em estruturas logísticas precedem a atividade econômica, de modo que, se os investidores pensarem em investir somente onde os gargalos são evidentes, vão sempre deixar dinheiro na mesa.
Exemplos didáticos são os do Barão de Mauá, pioneiro na linha de navegação no Amazonas, e Percival Faquar o investidor do porto de Belém. Seus investimentos trouxeram enorme retorno por, após viabilizarem as estruturas, terem ido atrás das pessoas e mercadorias que transitariam por elas. Centenas de outros fizeram assim na Amazônia. De Isaac Sabbá até à atual operadora do aeroporto, Vinci, que busca contato com potenciais exportadores de produtos da nossa biodiversidade, e colabora para divulgar o Polo Industrial de Manaus.
Contudo, de tanto que se fala do isolamento do nosso interior, com valores inacreditáveis para os preços das passagens de avião, nem sempre se justifica por uma escassez por falta de demanda. Pode-se citar números, sim, mas às vezes basta conversar com alguém do setor para perceber quão periclitante é a situação.
Veja o caso de Barcelos. Um dos principais destinos turísticos do Amazonas. Famosa mundialmente entre os aficionados da pesca, dispostos a pagar o que for para, vindo de onde for, mal parar em Manaus e irem direto para lá. Mas pasme: O aeroporto de Barcelos sequer tem uma torre. Para saber como está o tempo ou mesmo se tem outro avião a caminho, ou em retorno, é necessário efetivar um contato telefônico.
Recorde-se que a cidade poderia acrescentar ao atrativo natural o atrativo histórico de ter sido a primeira capital do Amazonas. Eventual reforma do aeroporto poderia encantar os visitantes com referências a esse respeito. Efetivada, só teria gente ganhando, ninguém perdendo. O que falta?
E quanto ao aeroporto de Manaus, novamente não precisamos de números. Basta ver o “Eduardinho” desativado. Na sua inauguração, em 1976, e reforma, em 2014, as decisões foram “de cima pra baixo”, o Eduardo Gomes nasceu e cresceu superdimensionado. Hoje é um ativo que clama por diversificação de atividades, rentabilização além das tarifas sobre cargas, passageiros e aeronaves. Sugiro um “hub” de prestação de serviços de manutenção de aeronaves, como há em Goiânia e Belo Horizonte. Com a nossa localização privilegiada entre Andes, Caribe e Atlântico, não faltaria demanda, de diversas companhias.
Ao lado dessa diversificação quem sabe até teríamos de volta aquele laguinho com peixes e tartarugas, que nos era único, e nos foi retirado sem a mínima consulta. Com essa diversificação só teria gente ganhando, ninguém perdendo. O que falta?

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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