Minha mãe, Maria Del Carmen Ramos Novoa a quem Deus chamou para Si há 11 meses, teve três filhos. Mas apenas eu sobrevivi. Era o filho do meio. A primogênita, Nieves Maria, partiu subitamente com onze meses de vida. Dois meses depois nasci. Passados dois anos, o nascimento de meu irmão, José. Prematuro e sem chances de viver. Éramos três. Esse meu primeiro núcleo social: a família. Composta por meu pai Elias (falecido há 50 anos – 1984), minha mãe e eu.
Um grupo pequeníssimo mas para mim, superlativo quanto a qualidade de vida familiar e de valores morais, éticos. E sentimentos nobres. Não conheci meus avós. Nem paternos e nem maternos. Sua terra natal era a Espanha. Moravam na região da Galícia. Distante do Amazonas cerca de 30 dias a bordo de um navio que singraria as águas do oceano Atlântico. Era uma aventura que os mais velhos não ousavam empreender. Repito, era um núcleo familiar pequeníssimo. Tudo chegava a nós em avalanches. Tanto as coisas boas, quanto as difíceis: Aplausos, carinhos, prêmios, estudos exitosos, lutos, as muitas doenças infantis (num tempo ainda com raras vacinas) e as ansiadas festas de agosto no dia de meus anos. Formávamos os três, um ninho singular. Porque o verbo amar era conjugado no imperativo do coração. É isso fazia com que adotassem afetivamente como seus também a todos os pequenos que moravam na Rua Jonathas Pedrosa, incluindo sobremaneira os queridos sobrinhos vindos de além-mar, as 3 sobrinhas filhas dos irmãos David e Urbano aqui radicados e depois os três netos que haveriam de vir. Tudo como se fossem criaturas destinadas a partilhar de nossas bem-aventuranças.
Certo dia, tinha eu doze anos, senti como que a perda anunciada de minha mãe. Estávamos no Rio de Janeiro. Ela fizera uma biópsia rotineira. Coisa de praxe. Mas para mim ciosa de sua contínua presença pareceu-me um atestado iminente de óbito. Guardei só para mim essa ansiedade e o medo. Dias depois numa espécie de catarse, desatei choro convulsivo durante missa na Igreja de N. S. de Copacabana. Tumultuei a celebração com aquela atitude: Os fiéis presentes e até o padre vieram a mim para consolar-me. Saí de lá, estóica. Não contei nada a ninguém até hoje, friso bem, a ninguém, esse medo gigânteo de perde-la para sempre. E hoje, num dia cinza que os anos colecionam para aborrecer-nos de vez, levam nossos colos para sempre…
Confesso que sempre quis ser filha única. Eternamente! Sabem por quê? Sabem o porquê deste egoísmo insano? Porque éramos unas e indivisíveis. Criou uma só filha. Como morávamos sob o mesmo teto viu a criação que dei aos meus filhos, seus netos. A eles auferiu. Mimos e carinhos e nada mais. Ela foi no agora para o Eterno. Mas guardo a certeza de que levou consigo todas as minhas canções de berço! Levou, todos os livros de contos infantis lidos à noitinha. Todas as primeiras letras que me ensinou. Ah! carregou também, as minhas primeiras preces. Aquelas que me ensinou em espanhol, sua língua natal. Levou igualmente ao altar celestial como oferenda especial aquela Salve Rainha (Salve reyna y madre de misericórdia…). Cantada em castellano e num estilo gregoriano. Cantou-a inesperadamente no leito do último dia. Por isso por essas ações de amor ditados pelo alto digo: Vai mãe! Vai com a incumbência, de ser Luz das Grandes Horas! Essa luz perene e ofuscante que a eternidade prometeu aos eleitos. Vai mãe! E leva contigo, toda a inocência de minha infância guardada nos pertences de tua alma! Leva minha infância feliz de quando nós éramos apenas três… Transcrito de 25/06/2025. Lido para todos na sua missa de 7º dia.
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial do Santuário Nacional de Aparecida-SP















