Acampamento Terra Livre: um chamado à consciência coletiva

Em: 23 de abril de 2025

Em meio à Esplanada dos Ministérios, onde o concreto e o poder político se entrelaçam, testemunhei uma das cenas mais poderosas da minha vida: milhares de indígenas, de mais de 135 povos, marchando sob o sol de Brasília durante o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2025.
Por ser um homem branco, heterossexual e cisgênero, minha presença ali foi simbólica: um “auto-convite” para reconhecer os privilégios históricos que carrego — e o custo desses privilégios.
O ATL, maior mobilização indígena das Américas, reuniu mais de oito mil pessoas neste ano, mas sua grandiosidade vai além dos números. Ao adentrar o acampamento, próximo ao Complexo Funarte, fui envolvido por uma teia de cores, cantos e histórias. Mulheres Pataxó, homens Guarani Kaiowá, jovens Tikuna — cada rosto carregava a resistência de séculos. Em faixas, frases como “COP 30 na Amazônia, a resposta somos nós” e “Pelo clima e pela Amazônia” ecoavam a conexão entre os territórios indígenas e a nossa sobrevivência no planeta.
Essa mobilização também é um espaço de construção de saberes e reafirmação de tradições. Questões como demarcação e segurança dos territórios, economia indígena, repartição de benefícios, exploração de recursos naturais, medicinas e cura, além da proteção dos direitos de crianças e mulheres, foram discutidas e reverberadas. Nós, não indígenas, não podemos esquecer: desrespeitar os direitos dos povos originários é manter aberta uma ferida histórica no Brasil.
A principal reivindicação do ATL, a meu ver, é a segurança climática do Brasil e do mundo. Para isso, é preciso demarcar terras — um direito constitucional que tem sido ameaçado. Infelizmente, apenas 13 terras foram homologadas nos últimos dois anos. E não podemos ignorar o fato de que os territórios indígenas são verdadeiras barreiras contra o desmatamento: 80% da Amazônia protegida está sob sua guarda.
Por isso, um dos resultados do ATL foi a criação da “NDC Indígena” (Contribuição Nacionalmente Determinada), que pressiona por metas climáticas que incluam a proteção dos territórios indígenas.
E o mais importante: a luta indígena não se restringe ao Brasil. Seus territórios são pilares para o enfrentamento da crise climática global. A exclusão dos povos originários das políticas ambientais — enquanto o agronegócio segue blindado nas metas climáticas — é uma falha catastrófica.
É urgente que a sociedade se una às vozes indígenas para exigir a derrubada do Marco Temporal, pressionando o Supremo Tribunal Federal; combater a desinformação, mostrando que demarcação não é “perda de terras”; apoiar uma transição energética justa, que não repita violências coloniais; e reconhecer a interseccionalidade das causas, acolhendo as demandas de mulheres, jovens, pessoas LGBTQIA+ e a saúde mental como bandeiras fundamentais.
Ao deixar o ATL, levei comigo a imagem de crianças indígenas dançando enquanto seguravam cartazes por educação. A manifestação delas também é por um futuro no qual justiça climática e justiça social sejam indivisíveis.
Cabe a nós, não indígenas, romper com a complacência e transformar solidariedade em ação.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Search