Há noites em que o folclore deixa de ser apenas espetáculo e passa a ser memória. A noite deste sábado, 8 de agosto, no Sambódromo de Manaus, será uma dessas ocasiões. A partir das 20h, os bois-bumbás Galante de Manaus, Brilhante e Tira Prosa entram em cena para disputar mais uma edição do Festival Folclórico do Amazonas, levando para a arena não apenas alegorias, toadas, danças e personagens, mas um pouco da própria história cultural desta cidade.
É preciso olhar para essa noite com mais atenção. O boi-bumbá de Manaus não nasceu nos grandes palcos, nem foi criado para atender aos padrões de um espetáculo grandioso. Ele veio do povo, dos quintais, dos terreiros, das ruas, das comunidades e das festas onde a cultura popular encontrou espaço para sobreviver e se reinventar. É justamente por isso que a disputa no Sambódromo não pode representar o afastamento de suas origens.
O Galante de Manaus chega com “Manaus, Ventre Sagrado do Folclore”, uma proposta que coloca a própria cidade no centro da narrativa. E há uma verdade importante nessa escolha. Manaus não é apenas cenário do nosso folclore. É território onde diferentes manifestações populares encontraram morada, cresceram e ganharam identidade própria. É cidade que recebeu influências, transformou tradições e criou uma maneira muito particular de expressar sua cultura.
Mas exaltar Manaus também significa assumir a responsabilidade de preservar aquilo que a torna diferente. Não basta falar da cidade como matriz cultural se, na prática, permitirmos que nossas manifestações percam suas características para seguir fórmulas prontas de espetáculo. O desafio do Galante, como dos demais bumbás, está justamente em transformar grandiosidade em identidade, e não identidade em grandiosidade.
O Brilhante apresenta “Urihi, a Floresta Ancestral” e traz para a arena a floresta entendida como território vivo, sagrado e ancestral. A temática dialoga diretamente com a Amazônia e com a presença dos povos originários, trazendo para o centro da apresentação questões que ultrapassam o entretenimento.
Urihi representa a terra floresta como espaço de vida, espírito e ancestralidade. É uma concepção que merece respeito, sobretudo em um momento em que a Amazônia é constantemente transformada em discurso, muitas vezes por quem conhece pouco da realidade daqueles que vivem nela.
E aqui está outra questão que considero fundamental. Quando o folclore utiliza a cultura indígena como tema, precisa fazê-lo com responsabilidade. Não podemos transformar a ancestralidade em simples elemento decorativo. A cultura dos povos originários não pode servir apenas para enfeitar alegorias ou justificar efeitos cênicos. Existe uma história, existe uma memória e existem povos que continuam lutando para preservar seus territórios, seus costumes e seus conhecimentos.
O Brilhante terá, portanto, uma oportunidade importante de mostrar que falar da floresta é também falar de gente. E então chega o Tira Prosa. Talvez seja justamente aqui que a história cobre mais caro o ingresso. “Boi de Patuá, Batuque dos Parauaras” resgata a dimensão afro-amazônica, a ancestralidade, os amuletos de proteção e a figura dos pretos velhos. É um tema que conversa diretamente com a história de um dos mais antigos bumbás de Manaus, nascido em 1944, no bairro de Santa Luzia, com a simplicidade dos bois de quintal e de terreiro. E é impossível não reconhecer a força simbólica disso. Antes de existir a grande estrutura, existia o terreiro. Antes dos grandes equipamentos de som, existia o batuque. Antes das enormes alegorias, existia a criatividade popular. Antes de o boi se transformar em produto cultural de grande alcance, havia gente reunida simplesmente pelo prazer de brincar, dançar, cantar e manter viva uma tradição.
O Tira Prosa carrega essa memória consigo. E talvez por isso sua apresentação tenha uma responsabilidade ainda maior. Não se trata apenas de competir. Trata-se de mostrar que um boi de terreiro também pode ocupar o Sambódromo sem precisar negar o quintal onde nasceu. É nesse ponto que o Festival Folclórico precisa provocar uma reflexão.
Estamos melhorando o espetáculo ou estamos, pouco a pouco, descaracterizando aquilo que pretendemos preservar? A pergunta pode incomodar, mas precisa ser feita.
Tenho acompanhado, ao longo dos anos, a transformação do Festival Folclórico do Amazonas. É natural que as manifestações culturais mudem. O folclore nunca foi uma peça congelada no tempo. Ele vive porque o povo o recria. O problema começa quando a inovação deixa de dialogar com a tradição e passa a substituí-la. Não sou contra a evolução. Sou contra o esquecimento. Não sou contra a grandiosidade. Sou contra uma grandiosidade que não tenha alma. Não sou contra a modernização. Sou contra modernizar a ponto de não conseguirmos mais reconhecer aquilo que nossos antepassados nos deixaram.
O Sambódromo pode ser uma grande vitrine do folclore de Manaus, mas não pode se transformar em uma espécie de fronteira entre o espetáculo e a tradição. Se o boi entra na arena e deixa do lado de fora a sua história, alguma coisa se perdeu no caminho.
Por isso, as três apresentações deste sábado merecem ser observadas não apenas com os olhos de quem espera uma noite bonita, cheia de luzes, cores e efeitos especiais. É preciso olhar com os olhos de quem conhece, respeita e valoriza a história do nosso povo.
O Galante falará de Manaus. O Brilhante falará da floresta e da ancestralidade indígena.
O Tira Prosa falará das raízes afro-amazônicas e de sua própria história de terreiro. Três caminhos diferentes, mas que podem nos conduzir a uma mesma pergunta: que folclore queremos deixar para as próximas gerações?
Essa, para mim, é a verdadeira disputa desta noite. A taça, os pontos e o resultado fazem parte do jogo. Mas existe uma vitória muito maior, que não aparece na apuração dos jurados. É a vitória de uma cultura que consegue chegar ao futuro sem abandonar suas raízes. No sábado, quando o primeiro boi entrar no Sambódromo, não estaremos vendo apenas uma apresentação. Estaremos vendo a história de Manaus entrar em cena.
E quando o boi entra em cena, Manaus também se reconhece.
















