O pessimismo voltou a aumentar entre os comerciantes de Manaus, em maio. O recuo foi puxado pela percepção do momento atual para a economia e para o setor, principalmente nas empresas com até 50 trabalhadores e que vendem bens duráveis. Houve piora também nas expectativas e intenções de contratar e investir, especialmente nas companhias de maior porte. A cidade acompanhou a média nacional, mas teve números piores. É o que revela o ICEI (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), levantado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
Manaus aparece com 105,1 pontos na pesquisa, sendo que valores acima de 100 pontos indicam satisfação. O resultado configura uma queda de 5,31% em relação a abril de 2023 (111 pontos), além de um tombo de 18,15% frente ao mmesmo mês do ano passado (128,4 pontos). Embora ainda esteja no patamar de confiança, o indicador de Manaus chegou ao nível mais baixo desde abril de 2021 (102,6 pontos). A média brasileira (108, pontos) foi na mesma direção, mas o declínio mensal se limitou a 1,5%, eliminando o ganho do mês anterior. Também ficou 9,8% aquém do patamar de 12 meses atrás.
O ICEC contrasta com os dados de outras pesquisas da CNC. O indicador de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) confirmou seu 11º mês de aumento mensal em Manaus. Foi alavancado por uma nova melhora nas percepções do consumidor local sobre sua renda, emprego e acesso ao crédito, assim como nas perspectivas e na disposição de adquirir bens duráveis. A Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) confirma, por outro lado, que os níveis de comprometimento de renda e inadimplência dos consumidores da capital amazonense se mantêm elevados, mas começaram a declinar.
Empregos e investimentos
Assim como ocorrido em abril, todos os nove subcomponentes do indicador de confiança do comerciante sofreram derretimento mensal em Manaus, sendo que dois deles estão no nível de insatisfação. As pioras mais acentuadas vieram das avaliações das condições atuais do comércio (-16,1% e 116,1 pontos) e da economia brasileira (-8,9% e 91,4 pontos). A avaliação sobre o momento presente das empresas (118,8 pontos) caiu 4,5%.
O empresário local também não vê boas perspectivas para a economia (-1,1% e 123,3 pontos), o setor (-3,4% e 135 pontos) e os próprios negócios (-3,4% e 147,1 pontos). Em sintonia com o pessimismo generalizado, os indicadores de contratação de funcionários (-5,5% e 114,5 pontos) e do nível de investimentos das empresas (-6,1% e 88,4 pontos) também seguiram no vermelho, assim como a satisfação com os estoques (-4,2% e 88,4 pontos).
A pesquisa confirma que diminuiu ainda mais o percentual de varejistas locais que consideram que a situação atual da economia brasileira “melhorou um pouco” (27%) ou “melhorou muito” (4,8%). Em contraste, as proporções de empresários que consideram que “piorou muito” (36,3%) ou “piorou um pouco” (31,9%) subiram. A avaliação majoritária sobre o comércio já é de piora relativa (33,6%), enquanto a visão predominante em relação à empresa ainda é de melhora atenuada (41,3%). Empresas com maiores contingentes de funcionários são as mais confiantes.
Embora as expectativas tenham voltado a esfriar, a avaliação predominante entre os comerciantes é de que a economia brasileira vai “melhorar um pouclo” (34,2%) ou até “melhorar muito” (32,4%), em detrimento da fatia minguante dos que cravam que vai “piorar muito” (18,9%) ou “piorar um pouco” (14,5%). As avaliações que pesam mais para o setor e a empresa também são de progressos mais significativos (38% e 42,8%, na ordem).
A parte majoritária dos lojistas ainda aponta que o quadro de funcionários deve “aumentar pouco” (44,5%). A parcela de comerciantes que diz que pode “reduzir um pouco” já chegou a 34,1%. Assim como no mês passado, a projeção predominante para investimentos é que será “um pouco maior” (37,4%), embora 30,4% já considerem que será “um pouco menor”. Sobre os estoques, 64,4% dizem que está “adequado”, em detrimento dos que informam que está acima (23,2%) ou abaixo (11,6%) do ideal.
“Melhores intenções”
O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços de Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, ressalta que o quadro apresentado pelo ICEC decorre de problemas que o setor já vem enfrentando desde 2022: aumentos de preços, carga tributária e juros bancários – que foi sentido por praticamente 80% da população brasileira. O dirigente acrescenta que, mesmo diante da aprovação do marco fiscal e das “melhores intenções” do programa Desenrola, o cenário ainda sinaliza dificuldades para consumidores e empresários.
“Em Manaus, tivemos consequências ainda mais graves, em razão das distâncias e dos aumentos sucessivos que sangraram os orçamentos das famílias. Hoje, somos a economia com maior volume de micro e pequenas empresas endividadas e a própria Sefaz se disse preocupada com a queda da arrecadação. Até os supermercados, que trabalham com produtos básicos, estão com queda de receita. O programa Desenrola deve ter uma cobertura ínfima e o benefício será pequeno. Só o tempo vai sanar essa dificuldade. Estamos ingressando no segundo semestre e esperamos que não haja nenhum percalço político que prejudique a economia”, ponderou.
“Crédito seleto”
A sondagem informa que 58% dos comerciantes brasileiros tiveram piora nas vendas pioraram, o percentual mais alto dos últimos dois anos. Em texto da assessoria de imprensa da CNC, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, pondera que, apesar de os consumidores indicarem maior intenção de compra, o endividamento e a inadimplência elevados e o “crédito caro e seleto” limitam a capacidade de consumo. “O consumidor tem apresentado otimismo, com melhora da renda disponível em razão da inflação mais baixa e das contratações formais em crescimento, mas isso não tem se traduzido em alta das vendas no varejo de forma geral e sustentada”, apontou.
Já a economista responsável pela análise da pesquisa, Izis Ferreira, reforça que, mesmo com o consumidor mais disposto a consumir, e a despeito das datas comemorativas, o otimismo é menor entre os empresários de todos os segmentos, sendo que três em cada dez consideram que as vendas vão piorar. A especialista menciona que a confiança caiu mais no segmento de vestuário, em razão da inflação comparativamente maior. E acrescenta que, sem perspectiva de redução de juros e diante do alto endividamento e da inadimplência, as vendas de duráveis seguirão limitadas.







