A capital registrou um fluxo de pessoas recorde para as compras de Natal nos últimos dias. Os comerciantes torcem para que esse movimento antecipado, registrado tanto no Centro, quanto nos shoppings centers e supermercados, se converta em faturamento efetivo neste Natal. O entendimento é que, caso isso seja confirmado, será possível superar a meta de volume comercializado neste ano. A projeção da CDL-Manaus (Câmara dos Dirigentes Lojistas do Estado do Amazonas) é que as vendas devem ser de 5% a 6% mais fortes neste ano, para uma receita bruta de R$ 1,47 bilhão, e um ticket médio de R$ 165.
O setor aposta tudo nas vendas para a festa natalina – o carro chefe do calendário do comércio, uma vez que vendas da Black Friday ficaram abaixo do esperado. A aposta era que a realização tardia e atípica da Copa do Mundo poderia aumentar o apelo da promoção norte-americana, que vem sofrendo esvaziamento nos últimos anos. A CDL-Manaus esperava um incremento de 8%, com os televisores despontando como carros-chefes de uma data comemorativa usualmente focada em eletroeletrônicos e bens de informática. O acréscimo efetivo, no entanto, não passou dos 6%, com produtos de menor valor agregado liderando em volume de vendas.
De acordo com o presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, o faturamento menos encorpado do que o esperado se deve à redução no número de empresas que aderiram à Black Friday. No total, 900 estabelecimentos comerciais participaram da promoção, 40% a menos do que no ano passado (1.500). Em mais um ano em que o consumidor preferiu usar parcela significativa de seu 13º salário para quitar dívidas, a maior timidez nos abatimentos de preços também não ajudou. Os descontos, que anos anteriores chegavam a 70% ou até a 80%, ficaram na faixa dos 5% a 50%.
“Com menos lojas oferecendo descontos, era natural que fosse mais difícil crescer. Além disso, muitas empresas diluíram a promoção em uma semana, em vez de focar descontos mais agressivos em um único dia. Se seguirem assim, os resultados vão ser cada vez menores. Mas, 6% não é nada mal para o período atual, sendo que os pagamentos em Pix só perderam para o cartão de crédito. As TVs acabaram liderando o faturamento, em razão dos valores. Mas, a maior parte do volume de vendas foi de camisas e produtos para a Copa. Tanto que o estoque terminou logo na segunda semana de novembro”, analisou.
Aposta no Natal
Segundo Ralph Assayag, a adesão de empresas à Black Friday foi menor neste ano porque os lojistas consideraram que o evento importado concorre com as festas de fim de ano, ainda mais quando somado a uma Copa. Por isso, preferiram colocar todas as fichas na campanha para o Natal. A expectativa agora é que os consumidores adotem a mesma estratégia. Nesse caso, o que pareceu ser um sinal amarelo para o setor poderia favorecer resultados acima do esperado. Vale notar que as famílias fizeram o contrário no ano passado e aproveitaram a promoção americana para adiantar as compras natalinas
“Estamos com um movimento muito grande nos shoppings, que estenderam seus horários para melhor atender o consumidor. O Centro está uma loucura e não se encontra lugar para estacionar nem perto do Mercadão. Os estacionamentos estão todos lotados. E, nesta quinta [22], chegamos a ter vários engarrafamentos nas avenidas próximas aos shoppings da zona Centro-Sul. Mesmo em centros de compras da zona Norte, e em lojas de material de construção, o fluxo de pessoas é considerável. Esperamos que tudo isso se configure em faturamento”, salientou.
No entendimento do comerciante, o volume maior de recursos injetados na praça a título de 13º salário, assim como o pagamento dentro do período das festas, é um indutor de vendas significativo, mesmo que parte significativa do benefício vá para a quitação de dívidas. Outro ponto favorável seria o fato de o Natal – e também o Ano Novo – caírem em um domingo neste ano, o que favoreceria o desempenho das vendas do ponto de vista comercial. “Devemos ser melhores em tudo neste ano, tanto nos empregos, quanto nas vendas. Mas, as empresas vão botar o pé no freio no próximo trimestre, para ver quais serão as medidas do governo, e decidir quando retomar investimentos”, avisou.
“Produtos baratos”
O sócio diretor da Foto Nascimento, Antonio Kizem Rodrigues, informa que as 12 lojas do grupo – situadas em ruas e shoppings de Manaus – esperavam crescer 15% na Black Friday. Mas, confirma também teve seus planos frustrados por uma demanda menor, que ele avalia ter sido fruto de uma soma de fatores, como o endividamento do consumidor, a Copa e as dúvidas quanto ao próximo governo.
“Mas, tanto nos Estados Unidos, quanto nas vendas brasileiras online, a alta ficou abaixo de dois dígitos, nos três dias de final de semana do evento. Na verdade, as promoções por aqui começaram no início de novembro, o que acabou diluindo as vendas. Tivemos algum crescimento no mês, mas esses dias da Black Friday ficaram abaixo do esperado”, lamentou.
O empresário informa que as expectativas para o Natal são mais modestas e os resultados preliminares, idem. “Esperamos crescer 5%, com exceção das lojas dos shoppings Millennium e Ponta Negra, que ainda não informaram seus números. O fluxo de pessoas é grande, mas a conversão está baixa. Há clientes procurando produtos mais baratos, mas dentro do esperado. Os produtos que estão saindo mais são celulares, caixas de som e itens de menor valor. Nosso segmento trabalha com margens muito apertadas, mas negociamos nas formas de pagamento”, comentou.
“Indicadores modestos”
O presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, confirmou à reportagem do Jornal do Commercio que o desempenho aquém do esperado durante a Black Friday ocorreu em função das incertezas da atual conjuntura econômica e política. D Por esse mesmo motivo, o comerciante avalia que, apesar do fluxo significativo nos estabelecimentos comerciais, nos últimos dias, o consumidor deve continuar no modo de cautela adquirido após os meses mais duros da pandemia, e colocar o pé no freio também neste Natal.
“Creio que há até um aumento em percentual significativo, algo em torno de 3% a 4%, apenas no pequeno varejo. Já no varejo estendido [que inclui também os segmentos de veículos, autopeças e material de construção] esses indicadores são muito mais modestos. E esse aumento deve ser mais significativo mesmo em compras de valores pequenos em segmentos como o de calçados e vestuário. Eletroeletrônicos devem ter uma participação muito menor”, encerrou.







