O pacote de medidas anunciadas na última quarta-feira (20) pelo Banco Central com vistas a estimular o crédito, ampliando o limite do compulsório dos bancos para ampliar os recursos disponíveis para empréstimos, foi recebido com cautela por lideranças ouvidas pelo Jornal do Commercio. Parte do ceticismo no meio empresarial se deve ao insucesso da primeira parte dos estímulos anunciada em julho.
Para o economista José Alberto Machado, as medidas anunciadas em julho ainda não surtiram os efeitos desejados. Além disso, apesar de ressaltar a importância de qualquer estímulo de crédito no Brasil, ele acredita que o pacote que foi anunciado nesta semana também não terá um efeito significativo. As medidas, na opinião de Machado, têm muito mais um caráter simbólico, ou seja, o governo sinalizando que está atento à questão do baixo crescimento e que está tomando medidas para fazer com que este índice não caia tanto.
“É um sinal para o mercado de que o governo está atento ao decréscimo constante do PIB, que cai a cada dia”, destacou.
Ele destaca vários fatores que podem contribuir para a estagnação da economia, mesmo com a facilitação do acesso ao crédito, entre eles os altos juros, inflação e as incertezas em relação à política e à economia.
“São muitas incertezas. Incertezas em relação ao processo eleitoral e à economia. Não se sabe claramente o que teremos em termos de quem poderá vencer as eleições. Além disso, sobretudo, temos as incertezas em relação a questões não resolvidas como aumento do preço da energia elétrica e dos combustíveis”, avaliou Machado.
O presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Ismael Bicharra compartilha da mesma visão. Ele afirma que somente o estímulo ao crédito não será capaz de alavancar o consumo, diante de um cenário de desconfiança das lideranças empresariais em relação à economia. Na opinião de Bicharra, não é só o crédito que estimula a economia, mas sim toda a conjuntura socioeconômica do país, incluindo infraestrutura, energia e legislação. Ele lembra que os estímulos ao crédito já vêm acontecendo há algum tempo pelo governo, mas que, sem investimentos e sem confiança, não surtiram efeito.
“Esse incentivo ao crédito já vem sendo feito pelo governo há alguns anos, mas não adianta incentivar o crédito se a confiança do empresariado está caindo cada vez mais. Isso faz com que haja menos investimentos, menos dinheiro circulando e mais desemprego. É preciso que o governo dê uma infraestrutura decente, que passe confiança com relação a energia e à legislação. Hoje o governo maquia os índices e tudo isso faz com que o empresário fique desconfiado – e o empresário desconfiado pensa muito antes de investir o capital que é próprio e que foi suado”, defendeu o presidente da ACA.
Mercado
O setor de duas rodas, por exemplo, é um dos quais até o momento, as medidas anunciadas em julho ainda não surtiram efeito. De acordo com o levantamento da Abraciclo(Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), realizado com base nos licenciamentos registrados pelo Renavam (Denatran), foram comercializadas 58.301 motocicletas na primeira quinzena de agosto, que corresponde a um declínio de 10% em comparação com o mesmo período de 2013 (64.688 unidades).
Em relação ao novo pacote, o diretor-executivo da Abraciclo, José Eduardo Gonçalves, acredita que apenas uma parte das novidades anunciadas pelo Banco Central terão impactos positivo no setor de duas rodas, um dos mais afetados pela dificuldade de abertura de crédito no mercado.
“Entre as medidas anunciadas ontem pelo BC e pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, acreditamos que a facilitação jurídica para retomada de bens pode refletir numa maior concessão de crédito para o segmento de motocicleta. A medida é um pleito do setor desde a queda abrupta das vendas, em 2011. Já a aplicação de R$ 10 bilhões de compulsórios não deve refletir no mercado de duas rodas.
Ainda segundo a Abraciclo, a medida que dispensa a cobrança judicial obrigatória pelas instituições financeiras em operações sem garantia de até R$ 100 mil e com garantia de até R$ 50 mil também é muito positiva para o crescimento do mercado nacional, entretanto, José Eduado Gonçalves ressalta que ainda serão necessárias várias mudanças na legislação para viabilizar o processo.
Já Eduardo Lopes, presidente do Sinduscon/AM (Sindicato da Industria da Construção Civil do Amazonas) afirmou que ainda existem muitas dúvidas sobre a forma como os financiamentos imobiliários serão oferecidos a partir de agora. Para ele, ainda é cedo para avaliar a efetividade dos pacotes.
“Precisamos ver se isso vai realmente acontecer de forma efetiva. Precisamos de um tempo de maturação. Não dá para anunciar medidas como essas em um dia e no dia seguinte o banco analisar e liberar o crédito. Vamos ver como os bancos vão definir os critérios para financiar. Ainda tem muita dúvida para ser tirada”, declarou.







