“Vice não tem a caneta”

Em: 22 de setembro de 2016

Dando sequência à série de entrevistas com os prefeituráveis de Manaus, o Jornal do Commercio entrevistou Hissa Abrahão, candidato a prefeito pela coligação “Novas Ideias, Novo Caminho” formada pelo PDT e PSDC. Natural de Manaus, Hissa aos 36 anos é deputado federal, para concorrer ao pleito declarou um patrimônio na ordem de R$ 1.734.466,46. Além de levantar a bandeira da transparência, o candidato garante que é ficha limpa e por isso está confortável para tomar decisões necessárias para sanar os problemas recorrentes de Manaus, se for eleito. Seu vice também é do PDT, atual deputado estadual Adjuto Afonso. Apesar de Hissa discordar dos resultados das pesquisas, registradas no TRE-AM, com polarização de dois candidatos que contam com a máquina pública em suas campanhas, ele admite que cerca de 50% da população está indecisa. Mesmo com nove candidatos na disputa pela prefeitura de Manaus, a rejeição está aumentando e os debates serão o termômetro dessas eleições, que ainda estão mornas, segundo o candidato do PDT.

Jornal do Commercio: Manaus está incluída entre as 14 capitais brasileiras em que o prefeito e o vice, eleitos em 2012, vão ser adversários nestas eleições. O real motivo deste rompimento com o projeto da atual administração municipal foi desvio de rota, problema de relacionamento ou a parceria não estava mais interessante para a sua pretensão política pessoal?
Hissa Abrahão: Em 2012 eu lutei muito para ser candidato a prefeito. Acho até que o meu destino seria bem diferente se eu tivesse conseguido ser candidato e não vice. Mas, não depende só da gente, depende do partido que pertencemos. Naquela altura o meu antigo partido, PPS, pediu que eu virasse candidato a vice e, de acordo com um sistema impositivo partidário, a gente não consegue fazer nada sem que o partido nos permita. Hoje eu estou em outro partido, PDT, que me atendeu, que me acolheu com muito carinho e que me deu autonomia para ser candidato a prefeito e por isso hoje eu estou concorrendo.

JC: O que o senhor faria pela cidade de Manaus se tivesse continuado como vice-prefeito e à frente da Seminf (Secretaria Municipal de Infraestrutura) e que fará se for eleito?
Hissa: Como eu fiquei só 11 meses na Secretaria, eu acredito que nesse pouco tempo que fiquei e com a pouca autonomia que tinha para encaminhar os projetos, executar diversos projetos, eu consegui fazer ainda muita coisa. É claro que na condição de prefeito eu faria muito mais. Eu teria autonomia, autoridade para decidir os projetos, as prioridades e poderia inclusive asfaltar mais ruas. Mas, quem decide é o prefeito eu era secretário subordinado ao prefeito e vice. E vice todo mundo sabe que não tem autonomia, não tem a caneta, não determina as licitações, não decide os projetos. O vice acaba sendo uma figura em que só atua na ausência do prefeito na cidade, fora isso, se o prefeito não permitir que ele atue, ele não consegue fazer muita coisa.

JC: Em Manaus, a estatística revela que os vices não concluíram seus mandados há, pelo menos, duas décadas. Seria uma espécie de maldição dos vices, ou essa falta de autonomia torna o vice uma figura decorativa?
Hissa: Eu não tenho nada contra o cargo de vice. O que eu achei errado, o que aconteceu comigo, é que eu tive autonomia na campanha. Essa mesma autonomia para propor os projetos, divulgar as ideias e fazer 70% da campanha do atual prefeito, eu não tive na gestão. Uma coisa é um vice que na campanha tem um papel formal no processo eleitoral e depois, dentro da gestão, ele vai continuar mantendo esse papel. Só que no meu caso não foi assim, eu, praticamente, toquei 70% daquela campanha e acredito que eu merecia um respeito para ter autonomia necessária para continuar a trabalhar. Até porque muita gente ia me cobrar e boa parte da população me cobrava. Eu tive autonomia na campanha para prometer, mas durante a gestão o atual prefeito não me deu essa autonomia para executar. Além disso, em 11 meses, eu acabei trabalhando muito e se tivesse trabalhado pouco talvez nós estivéssemos juntos até hoje. Mas como eu trabalhei muito, acho que isso acabou gerando um mal-estar no sentido de que eu pudesse estar querendo ser maior que o titular e, aí gerou ciumeiras, enfim, saí.

JC: O senhor correu o risco de não conseguir disputar a prefeitura de Manaus por conta de seu posicionamento contrário ao partido no processo do impeachment na Câmara. Somado ao rompimento com o prefeito Arthur Neto e à saída do PPS podemos concluir que o senhor não aceita amarras partidárias? O senhor é um político rebelde?
Hissa: Não. Eu sou muito convicto das minhas decisões. Quando eu decido, realmente, tomar uma decisão eu vou até o fim. No caso do impeachment, é bom que fique claro, quem julgou a presidente foi o Senado da República que tem a função de julgar. Nós deputados federais apenas autorizamos e admitimos esse processo. Eu autorizei, mas quem estudou, julgou foi o Senado da República. Eu não poderia deixar de autorizar uma investigação.

JC: Mas, então porque o senhor fez suspense do seu voto até o último minuto, antes da votação?
Hissa: No caso do impeachment, eu não divulguei o meu voto antecipado para preservar minha relação com o PDT. Um dos motivos que fez o PDT rever a decisão de não me expulsar foi, exatamente, porque eu me comportei durante a votação do impeachment, não divulgando o meu voto, respeitando o partido, mas um dia eu tinha que dizer. Então, pelo menos eu não tripudiei em cima da decisão do PDT. Eu aguardei o momento oportuno para divulgar o meu voto de acordo com as minhas convicções e não criei dissidência.

JC: Como o senhor analisa as alianças colocadas em disputa neste pleito unindo antigos desafetos aos 45 do segundo tempo das convenções partidárias?
Hissa: A coligação do Arthur com o Eduardo é uma decisão que eu não concordei, evidentemente, tanto é que eu sou candidato a prefeito, mas tive que respeitar. Eu tenho muito respeito pelo senador Eduardo Braga, mas ele escolheu o seu lado e eu estou, exatamente, do outro lado fazendo oposição a essa prefeitura. Se eu estivesse satisfeito com os rumos da prefeitura eu teria me calado diante das prioridades que o prefeito fazia, desde quando eu era vice-prefeito, estava lá até hoje. Mas, eu resolvi não me calar, houve a ruptura e eu estou fazendo uma oposição construtiva para que a gente possa ter as novas ideias, realmente, saindo do papel.

JC: O senhor fala em renovação, mas ingressou no PDT em março deste ano e já em abril assumiu o comando da legenda no Estado por ordem do presidente nacional do partido. O senhor acabou assumindo um partido que, até bem pouco tempo, no Amazonas teve como principal cacique o ex-prefeito Amazonino Mendes, o principal artífice deste grupo político que vem se revezando no comando do Estado, há mais de 20 anos. Não há contradição neste discurso?
Hissa: A renovação depende muito do gestor que a queira usar. Não dá mais para termos prefeitos que só administrem rotinas.
E renovação é ousar. É fazer, por exemplo, o Condomínio do Idoso, que é uma proposta nossa; fazer o Parque Floresta Juventude, muito semelhante ou até melhor que a Ponta Negra, entre a zona Leste e Norte, isso é um projeto grande que contempla com dignidade a população das zonas Norte e Leste. É tirar o BRT do papel, é qualificar o transporte fluvial urbano que já existe com as voadeiras que temos aqui, no nosso beiradão. Pelo menos, criar a figura do hidrobus, onde a população pode se deslocar aproveitando a nossa orla, tudo isso.

JC: Nas pesquisas que vem sendo registrada no TRE-AM, aponta dois candidatos polarizando o segundo turno e o senhor tecnicamente empatado em 4º lugar. Como o senhor analisa esses resultados?
Hissa: Como esses dois candidatos de máquina, um da prefeitura que quer a reeleição e o outro com o governador Melo, que tem total interesse que ele vença. As máquinas (públicas) estão trabalhando para que se crie uma ideia na cabeça dos indecisos de que só os dois têm chances, exatamente, para impedir que todos os outros cresçam. Agora, o que eu tenho visto nas ruas não é isso que as pesquisas traduzem. E, pesquisa não ganha eleição. Se pesquisa ganhasse eleição ou se pesquisa fosse fator preponderante, não precisava fazer campanha. Mas, uma coisa as pesquisas tem sido muito semelhantes, o resultado de que 50% da população esta indecisa.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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