Agronegócio surge como nova matriz econômica no Amazonas

Em: 3 de outubro de 2026

O calendário agropecuário do Amazonas já não cabe apenas na programação da capital. De Boca do Acre a Apuí, de Santo Antônio do Matupi ao Purupuru, municípios do interior passaram a dar maior visibilidade às atividades rurais por meio de feiras, exposições e encontros que reúnem produtores, comerciantes, fornecedores e diferentes segmentos da economia. A frequência dessas iniciativas revela uma mudança importante. O interior começa a ocupar, com mais força, o espaço que lhe cabe na agenda econômica do Estado.

A Expoagro, em Manaus, divide espaço nesse calendário com iniciativas como a Expomanacá, em Manacapuru, a Expo Manaquiri, a ExpoCoari, a Expopin, em Parintins, a Expoanh, em Nhamundá, a Expoapi, em Apuí, e a Expoboca, em Boca do Acre. Retomada em 2019 pelo então governador Wilson Lima, após seis anos sem ser realizada, a Expoagro voltou ao calendário agropecuário do Amazonas e, em 2026, sob o governo Roberto Cidade, alcançou a maior edição de sua história. Em 2026, esse movimento também passou pela III Expo Purupuru, em Careiro da Várzea, realizada em julho, e pela 1ª Feira Agropecuária da Associação Uniflor, realizada em julho, em Santo Antônio do Matupi, distrito de Manicoré. São municípios com realidades distintas, mas que encontraram nas exposições agropecuárias uma forma de aproximar produção, comércio e oportunidades.

A Expomanacá, oficialmente denominada Feira e Exposição Agropecuária de Manacapuru, integra o calendário oficial de eventos do Estado e tem realização prevista anualmente em outubro. A dimensão desse calendário mostra que o agronegócio deixou de ser assunto restrito aos grandes centros de produção ou às discussões concentradas na capital. Ele está presente onde o produtor vive, onde o rebanho cresce, onde a agricultura encontra espaço e onde novas atividades começam a ganhar mercado.

Os números da VII Expo Manaquiri ajudam a traduzir essa movimentação. Realizada em agosto de 2026, a feira reuniu aproximadamente 45,6 mil pessoas e movimentou mais de R$ 2,31 milhões na economia local, segundo dados divulgados pela prefeitura. É um volume que chama atenção não apenas pelo valor, mas pela capacidade de um município do interior transformar uma agenda agropecuária em circulação econômica. Em diferentes escalas, outras exposições seguem a mesma lógica e colocam produtores e consumidores diante de oportunidades que dificilmente surgiriam com a mesma intensidade no cotidiano.

Na capital, a Expoagro concentra negócios, exposição de produtos e iniciativas de incentivo à produção rural. No interior, entretanto, a importância dessas feiras ganha outra dimensão. Elas ajudam a revelar vocações produtivas, aproximam quem produz de quem compra e colocam em evidência uma economia que muitas vezes permanece distante dos grandes debates estaduais. A força desse movimento está justamente na capacidade de fazer com que o desenvolvimento econômico seja percebido também fora de Manaus.

É preciso, porém, olhar para além dos dias de exposição. O crescimento do calendário agropecuário só terá significado econômico mais amplo se vier acompanhado de condições para que o produtor continue produzindo depois que os portões forem fechados. Crédito, assistência técnica, regularização, transporte, armazenamento e acesso a mercados continuam sendo questões decisivas. No Amazonas, onde a distância ainda impõe custos elevados e limita o escoamento de muitas produções, esse desafio é ainda maior.

A agricultura familiar, a pecuária, a piscicultura, a pesca e as atividades agroindustriais fazem parte dessa realidade e precisam ser consideradas quando se fala em expansão da economia rural. Não se trata de escolher uma atividade em detrimento de outra, mas de reconhecer a diversidade produtiva de um Estado que possui vocações diferentes em cada região. O papel das feiras é aproximar essas vocações de mercados, investidores, fornecedores e consumidores, criando oportunidades que possam continuar depois do evento.

A própria agenda de 2026 demonstra a dimensão desse movimento. A AGROPEC, oficialmente denominada Festa Agropecuária de Careiro, foi reprogramada para novembro, depois de inicialmente prevista para setembro. A reorganização de calendários faz parte da dinâmica desses eventos, mas também reforça a necessidade de planejamento, infraestrutura e continuidade para que o esforço de produtores e municípios produza resultados cada vez mais consistentes.

O crescimento das feiras agropecuárias no interior merece ser observado, portanto, pelo que acontece dentro e fora dos estandes. O verdadeiro avanço estará na conquista de compradores, na abertura de novos mercados, na continuidade dos negócios e na capacidade de transformar produção em renda para as famílias e arrecadação para os municípios. É nessa passagem entre o evento e a economia real que o calendário agropecuário pode adquirir uma importância ainda maior para o Amazonas.

O interior já demonstrou que tem produção, capacidade de mobilização e disposição para ocupar novos espaços. Agora, o desafio é transformar essa força em escala, mercado e renda. Quando uma feira aproxima o produtor de um comprador, apresenta uma nova tecnologia, abre uma oportunidade comercial ou fortalece uma cadeia produtiva, seus efeitos ultrapassam os dias de programação. É nesse ponto que o agronegócio deixa de ser apenas parte da agenda de eventos e começa a se revelar como embrião de uma nova matriz econômica do Amazonas, capaz de ampliar a circulação de riqueza, fortalecer os municípios e dar ao interior participação cada vez maior na construção do desenvolvimento econômico do Estado.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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