Beneficiado nos anos iniciais da Zona Franca de Manaus, em virtude do chamado “turismo de compras”, o comércio local sofreu um baque significativo em seu volume de negócios no começo dos anos 1990. A abertura comercial generalizada às importações de bens acabados, promovida pelo então Governo Collor (1990 – 1992), acabou com a necessidade do brasileiro de vir à capital amazonense para adquirir produtos importados – geralmente eletroeletrônicos. Boa notícia para o consumidor nacional, má notícia para os comerciantes manauenses.
Desde então, as entidades representativas dos lojistas vêm se movimentando para conseguir que o modelo ZFM volte a empurrar o setor para frente, em um ambiente de fluxo turístico reduzido em relação aos anos 1970 e 1980, e basicamente limitado à demanda local. Fontes ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio informam que a perda de escala nas vendas, inclusive, é um fator que dificulta oferecer preços mais acessíveis, pois também impede maior formação de estoques. Os esforços dos comerciantes incluíam que a atividade ganhasse ao menos um pouco mais de visibilidade, o que começou a ser conseguido neste ano.
A Suframa divulgou recentemente que o volume de compras se manteve em escala ascendente de dois dígitos no ano passado, apesar das dificuldades econômicas impostas pela pandemia e pela crise econômica, e a despeito desaceleração das vendas do setor, na reta final de 2021. De acordo com dados do SIMNAC (Sistema de Mercadoria Nacional) da autarquia, o valor nominal de PINs (Protocolos de Ingresso de Mercadoria Nacional) internados na autarquia avançaram 38,54% na comparação com 2020, nos cinco Estados da área de abrangência do modelo: Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá. O destaque veio de comércio e serviços.
No total, em todo o ano passado, foram internados R$ 52,77 bilhões em mercadorias nacionais na área incentivada da Suframa, enquanto que, em 2020, este montante totalizou R$ 38,09 bilhões. O Amazonas foi o líder no ranking de valores de internamento de PINs em 2021, com R$ 33,95 bilhões, o equivalente a 64,34% do total. Na sequência, aparecem Rondônia (R$ 7 bilhões), Roraima (R$ 4,88 bilhões), Amapá (R$ 4,87 bilhões) e Acre (R$ 2,05 bilhões).
Texto divulgado pela assessoria de imprensa da Suframa aponta que os dados ajudam a refletir a importância de comércio e serviços para a região, uma vez que nos Estados analisados as atividades econômicas lideraram de forma absoluta os valores de internamento de mercadorias nacionais. No Amazonas, ambos somaram R$ 17,60 bilhões em aquisição de mercadorias nacionais internadas, o que representa uma participação de aproximadamente 52% no total. “Nos demais Estados de atuação da Suframa, o setor comercial também é o de maior representatividade na aquisição de mercadoria nacional incentivada na região”, salientou o texto da autarquia.
Tripé da ZFM vem sendo deixado de lado
O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, ressalta que a ZFM completa 55 anos de um projeto vitorioso, tanto para o Brasil, quanto para a região. No primeiro caso, assinala a implantação de um “polo vigoroso” para produção de itens de alta tecnologia. No segundo, lembra que o Decreto 288/1967, que reformulou a Zona Franca, visava instalar um polo comercial, industrial e agropecuário, o que teria sido parcialmente conseguido.
“Nos primeiros momentos, a ZFM teve um comércio muito forte, porque a cidade era o único ponto do país onde o brasileiro poderia encontrar produtos importados e de alta tecnologia em conta. Em 1990, o então presidente Collor, no intuito de refazer o setor industrial, permitiu as importações. Mas, isso acabou com o grande setor comercial desenvolvido na capital amazonense. Era aqui que o brasileiro de classe média e poder aquisitivo mais baixo, que não tem renda para ir aos Estados Unidos ou Europa, comprava esses produtos”, lamentou.
Frota avalia que, em função dessa modificação de cenário, o polo comercial de Manaus não apenas perdeu vigor, como também abriu espaço para a instalação de pelo menos quatro grandes “pontos comerciais de contrabando”, que se instalaram no Centro-Sul do país. A lista inclui a Rua 25 de Março, no Centro de São Paulo; a Saara, no Centro do Rio de Janeiro; a “Feira do Paraguai”, em Brasília; e a Foz do Iguaçu, no Paraná. “Temos de lamentar que perdemos o comércio e, infelizmente, a agropecuária não atingiu o grau de maturidade para podermos considerar com presença mais efetiva no Estado. Só a indústria floresceu e se consolidou, mas ainda sofre ameaças”, frisou.
O presidente em exercício da Fecomercio-AM lamenta que o a perda de fôlego do comércio de Manaus vindo acompanhada por “perdas e baixas” no turismo, durante todos os últimos anos e enfatiza que as dificuldades se agravaram durante o período de pandemia. Por isso, conta que a entidade buscou, na Suframa, quebrar um “silêncio em relação ao acolhimento de dados e informações sobre as atividades”, que até então não existiam, conforme o comerciante.
“Neste ano, a autarquia nos brindou com uma série de números sobre os setores e sua representatividade no cenário econômico regional. Temos a preocupação de refazer todos esses conceitos e de criar um foco da Suframa, que é uma agência de desenvolvimento, para enxergar o crescimento de comércio e serviços. Hoje, o órgão já vislumbra no setor terciário um polo e contribui para o desenvolvimento da economia do Amazonas. Dessa forma, rompe também um silêncio de 55 anos”, afiançou.






